quinta-feira, 2 de abril de 2015

Dawkins refutou o argumento da moralidade?


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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "Deus é um Delírio?"
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Você já parou para pensar por que faz parte do senso comum considerar Hitler uma pessoa má e Madre Tereza uma boa pessoa? Você já parou para pensar que também é do senso comum que o nazismo é mau, enquanto a democracia é boa? Ou que ajudar uma criança que esteja morrendo afogada é uma atitude mais nobre e bela do que ficar observando a criança morrer afogada para não ter que molhar as calças? Ou que atitudes como estupro, traição, racismo, assassinato, tortura ou outras formas de crueldade são real e objetivamente más? Você já parou para pensar qual é a razão para isso?

Muitas pessoas nem pensam nestas coisas por parecerem tão óbvias e autoevidentes. São coisas que estão tão inseridas na natureza humana que parar para pensar sobre elas parece desperdício de tempo. Talvez seja essa a razão por que muitos acham que nós não precisamos de Deus para sermos bons. Certa vez um ateu muito conhecido no YouTube aqui no Brasil ridicularizou a tese de que precisamos de Deus para a moralidade. Ele disse que é moral porque é educado, e não por causa de Deus. Mas a educação faz parte da moralidade, então essa resposta é chover no molhado. É como dizer que eu sou moral porque sou moral. Não faz sentido. Não responde a questão.

A segunda questão que alguém poderia fazer a este ateu é muito simples: por que você acha que ser educado é certo, e ser mal educado é errado? Aposto que ele responderia: “sou educado porque sou moral”. As respostas em círculos, muito presentes em quase todas as objeções ateístas ao argumento moral, atestam a falácia em suas respostas. Em contraste, os teístas têm uma resposta pronta à questão: Deus. A mesma Causa primeira que criou o Universo implantou em nosso ser uma consciência moral do certo e do errado, do qual nós podemos desviar, mas não podemos negar que estes padrões existem.

O argumento é construído da seguinte maneira:

• Se Deus não existe, absolutos morais não existem.
• Mas absolutos morais existem.
• Portanto, Deus existe.

Há duas formas que o ateu pode rebater este argumento. A primeira delas é refutando a premissa de que absolutos morais existem. Mas isto o tornaria tão monstruoso (ao ponto de ser obrigado a sustentar que o estupro não é objetivamente errado) que são raros os ateus que se lançam contra esta premissa. A segunda forma, mais comumente utilizada, é alegando que absolutos morais existem, mas não foi Deus quem os criou. Eles se veem forçados a sustentar a ideia de que a seleção natural, de alguma forma, “criou” o senso de moralidade que nós temos hoje. É isso o que Dawkins defende em seu livro.

Antes de reforçarmos as premissas que levam à conclusão inevitável de que Deus existe e é o criador da lei moral, convém explicarmos mais precisamente o que queremos dizer quando afirmamos que não é possível ser bom sem Deus. Nós definitivamente não estamos dizendo que todos os ateus são amorais, nem que somente os que creem em Deus são morais. Isso é evidentemente falso. Existem ateus mais morais do que muitos cristãos neste mundo, que não vivem a fé que professam. O argumento não é o de que não é possível ser moral sem crer em Deus, mas sim de que não é possível ser moral sem a existência de Deus. Em outras palavras, os ateus morais só podem ser morais porque Deus existe, ainda que eles não creiam nEle.

Se isto está um pouco confuso, pensemos na lei da gravidade. Suponhamos que Fulano seja cético em relação à gravidade e não creia nela. A gravidade deixará de existir por causa disso? É claro que não. Ou então pensemos na Sociedade da Terra Plana, que existiu até 2001 e que rejeitava o fato de que a Terra é esférica. A Terra deixou de ser esférica por causa da crença deles em uma Terra plana? Não. Ela continuou esférica, crendo eles ou não.

Com Deus é a mesma coisa. Há uma lei moral que veio do Criador e que está implantada no coração de cada ser humano que já veio ao mundo, de forma completamente indistinta, não importando se o indivíduo crê nEle ou não. O fato do ateu não crer que este Deus existe ou achar que este Deus não tenha implantado lei moral alguma, em nada muda o fato de que este Deus existe, e esta lei também. Da mesma forma que Deus deu olhos aos crentes e aos descrentes, e faz a chuva cair sobre justos e injustos (Mt.5:45), ele deu uma lei moral de consciência para cada ser humano antes mesmo que possamos decidir se Ele existe ou não, e essa lei moral permanecerá independentemente da nossa decisão em crer ou não crer, da mesma forma que a gravidade existia antes de nós e permanecerá existindo mesmo que sejamos descrentes em relação à ela.

Portanto, ignoremos as objeções mais infantis ao argumento moral, constantemente advindas de gente que até hoje não entendeu nada do argumento. A questão não é se a crença em Deus é necessária para a moralidade. Não é. A crença em Deus é necessária para muitas coisas – inclusive as mais importantes questões da vida: a salvação e a vida eterna – mas não para ser moral. A questão aqui é outra. É se seria possível ser moral se Deus não existisse. É se existe algum padrão fora de Deus para definir o que é certo e errado, ou algum critério que determine o que é moral e amoral, sem apelar para Deus.

Mas para chegarmos a este ponto, precisamos primeiro confirmar a premissa que diz que absolutos morais existem. Se a moral não existe ou se tudo é relativo, não há mesmo razão para se evocar um Deus na questão da moralidade.


A moral objetiva existe? 

É universalmente aceito que existem coisas moralmente más e coisas moralmente boas. Uma evidência rápida e simples é a lei de cada país. Independentemente de onde você for, se vive no Brasil ou na Groelândia, há um conjunto de leis que dizem o que é permitido e o que é proibido, que nada mais são senão o conjunto daquilo que cada país considera moralmente aceitável ou moralmente inaceitável. Estas leis seriam totalmente inúteis e sem sentido caso não existisse uma moralidade objetiva.

Quando falamos sobre moralidade objetiva, estamos traçando um contraste com aquilo que alguns humanistas seculares chamam de moralidade subjetiva. A diferença entre o objetivo e o subjetivo é muito evidente e prática. O objetivo é um absoluto que é uma verdade para quem quer que seja, e onde quer que seja. O subjetivo é uma particularidade que depende das opiniões pessoais de cada indivíduo. O subjetivo é você preferir uma casquinha de baunilha, quando outra pessoa prefere a de chocolate e eu prefiro a mista – enquanto outras pessoas sequer gostam de sorvete. É você preferir hippie hop, quando outra pessoa prefere jazz e eu prefiro pop rock – enquanto outras pessoas sequer gostar de ouvir música. O subjetivo é, por conseguinte, relativo, e depende unicamente da própria pessoa.

O objetivo, por outro lado, é dizer que Dom Pedro I declarou a independência do Brasil, fato este que não depende da opinião ou do gosto particular de ninguém, precisamente por ser um fato. As leis da matemática também são um padrão objetivo. 2+2 sempre será igual a 4, independentemente da minha ou da sua opinião. Eu posso relutar, discordar, errar a tabuada ou jogar o caderno na professora, mas 2+2 será sempre igual a 4, querendo eu ou não. A matemática é objetiva e absoluta, e não há como discordar disso.

Na vida real, quase ninguém discute por causa de questões subjetivas, exatamente porque são subjetivas. Eu detesto legumes e vomitaria só de pensar em comer um, mas tem muita gente que gosta, e eu não critico isso. Nem faria sentido criticar isso, pois não há um critério que defina o que é certo e o que é errado na questão do gosto alimentar. Se houvesse um critério universal, algum padrão que definisse qual comida está mais próxima do Bom e qual está mais próxima do Ruim, eu apelaria a este padrão para defender minha opinião de que legumes são ruins. Mas não há. Por ser uma questão subjetiva, o critério é a opinião particular de cada um, e não um padrão maior do que eu ou você.

Como o critério é pessoal, eu não posso tentar mudar o seu ponto de vista sobre os legumes baseado no meu ponto de vista sobre os legumes. Em outras palavras, o meu critério pessoal não pode interferir no seu critério pessoal, e vice-versa. Se houvesse um critério maior do que nós dois, a quem devêssemos obediência, seria possível usar este padrão para decidir quem de nós dois está certo. Mas se o padrão neste caso subjetivo é a própria pessoa, a minha opinião tem tanto peso quanto a sua, e ninguém pode influenciar nada na opinião do outro.

Tal coisa não ocorre, por exemplo, na questão do estupro. O estupro é objetivamente errado, de forma plena, absoluta. O estupro é um mal moral absoluto porque é absolutamente errado estuprar alguém. Se o estupro fosse uma questão subjetiva, assim como o gosto ou desgosto pela comida ou por um estilo musical, alguém que dissesse: “eu acho o estupro bom” não soaria muito mais revoltante do que alguém que dissesse: “eu acho brócolis bom”. As duas coisas não se misturam porque o primeiro é um valor objetivo, enquanto o segundo é meramente subjetivo. O primeiro não depende da opinião minha ou sua, mas de um padrão mais elevado do qual todos nós dependemos, enquanto o segundo não tem um padrão mais elevado a nós, resumindo-se somente a opiniões particulares.

Escolher qual time torcer é subjetivo (não há um padrão maior que obrigue eu ou você a escolhermos certo time, senão todos escolheríamos o mesmo!), mas dizer que tal time foi campeão Brasileiro de 2007 é objetivo (não depende da nossa opinião, há um critério para isso). É por isso que eu não posso discutir com outras pessoas sobre o porquê delas não torcerem pelo São Paulo FC, embora possa discutir com alguém que negue que o São Paulo seja tricampeão da Libertadores[1].

Eu não discuto com o primeiro porque é subjetivo e eu não teria nenhum critério objetivo para apelar, mas posso discutir com o segundo porque há critérios que determinam quem foi campeão do que, e quando. É por essa razão que não é errado escolher torcer para o Fluminense (subjetivo), embora seja errado dizer, por exemplo, que o Fluminense não é um time carioca (objetivo).

Baseado nesta distinção entre o objetivo e o subjetivo, devemos perguntar: a moral é objetiva? Se a resposta for que não, então questões sobre o estupro, a tortura, a pedofilia, o racismo, o assassinato, a traição e deslealdade são somente opiniões, assim como o gosto por baunilha ou chocolate. Eu gosto de matar pessoas inocentes, você gosta de ver as pessoas vivas. Eu gosto dos judeus, você gosta do nazismo. Eu gosto de adulterar, você gosta de ser fiel. Se você também tem nojo de um discurso desses, que reduz a questão moral ao patamar do subjetivo, junte-se ao grupo dos que entendem a moral como objetiva.

Mas, se a resposta for que sim, devemos perguntar: quem é, então, o autor deste critério absoluto, objetivo e universal que está acima de nós e que devemos obediência? Eu posso mostrar o criador do critério que define quais times foram campeões brasileiros (a CBF), mas qual ateu pode mostrar o autor do critério universal que define a moralidade objetiva? Se a resposta for que este autor não existe, como foi que chegamos à conclusão de que o altruísmo é moralmente bom, enquanto o egoísmo é moralmente mau?

Alguns contestam a moralidade objetiva dizendo que ela é relativa a cada cultura, e que isto prova que toda a moralidade é subjetiva. É verdade que cada cultura tem seu próprio conjunto de leis daquilo que eles consideram moralmente certo ou errado, mas é falsa a conclusão de que a moralidade é subjetiva (de que apenas depende da opinião de cada um). Pergunte a um destes relativistas morais se é certo ou aceitável executar gays em praça pública por serem gays, como no Irã. Ele provavelmente irá dizer que não, mas o governo iraniano não pensa assim.

Se devemos respeitar cada cultura pois a moral é relativa a cada lugar, então devemos “respeitar” o assassinato de homossexuais no Irã, ou a tortura de cristãos na Coréia do Norte. O típico relativista moral não vai se opor muito ao segundo caso, mas com certeza irá se manifestar da forma mais enfática possível contra o primeiro. De uma forma ou de outra, ele geralmente não senta no sofá de braços cruzados e diz: “Estão assassinando e torturando inocentes? Vamos respeitar. É a cultura deles. Isso está certo na visão subjetiva deles”. Ao contrário, ele geralmente condena tal prática, ignorando sua própria tese do relativismo moral.

Se os Aliados fossem relativistas morais, eles deixariam Hitler agir livremente até matar o número máximo de pessoas inocentes que queria matar. Afinal, Hitler estaria “certo” sob sua própria perspectiva moral. Se a moral objetiva não existe, sequer faz sentido falar em “certo” ou “errado” em termos morais, pois qualquer pessoa que fizesse algo imoral na sua perspectiva estaria sendo moral na perspectiva dele. Então os Aliados teriam que “respeitar” que Hitler detestasse judeus e incitasse seus soldados nazistas para colocá-los em campos de concentração, para ali serem torturados e morrerem em câmaras de gás.

Se não há moral objetiva e se toda a moral depende da opinião pessoal de cada um, então os nazistas estavam tão certos em assassinar judeus quanto os Aliados estavam em querer defendê-los. De fato, foi isso o que David Silverman, o presidente da “American Atheists”, defendeu em seu debate com Frank Turek[2]:

Frank Turek – Se a moral é relativa, então nós não tínhamos como realmente condenar os nazistas por aquilo que eles fizeram.

David Silverman – A dura resposta é que você está certo. A dura resposta é que é uma questão de opinião.

Para eles, o nazismo não foi objetivamente errado, nem podemos objetivamente dizer que eles estavam absolutamente errados em torturar e matar judeus em campos de concentração, porque isso é mera questão de opinião, de gosto particular de cada um, e cada um acha aquilo que quiser achar. Mas, como disse Craig, “dizer que o holocausto foi objetivamente errado é dizer que ele foi errado ainda que os nazistas que o levaram adiante pensassem que ele era correto, e continuaria a ser errado mesmo que eles tivessem vencido a guerra e conseguido exterminar ou fazer uma lavagem cerebral em todos que discordassem deles, para que todos acreditassem que o holocausto era correto”[3].

Um relativista moral poderia sustentar que a moral nazista era inferior à moral republicana, mas ainda assim diferente, e, portanto, relativa. Mas como ele poderia saber que a moral nazista é inferior à moral democrata, se não há nenhum padrão ou critério objetivo para determinar o que está mais próximo ou mais distante do Bem?

A afirmação de que a moralidade de um povo ou cultura é superior à moralidade de outro povo ou cultura coloca completamente por terra as pretensões dos relativistas morais, pois isso é a mesma coisa que admitir a existência de um padrão objetivo de moralidade para medir todos os outros, que é exatamente o que afirmamos. Ninguém falou melhor sobre isso do que C. S. Lewis, quando disse:

“Se um conjunto de ideias morais não fosse melhor do que outro, não haveria sentido em preferir a moral civilizada à moral bárbara, ou a moral cristã à moral nazista. É ponto pacífico que a moralidade de alguns povos é melhor que a de outros (...) No momento em que você diz que um conjunto de ideias morais é superior a outro, está, na verdade, medindo-os ambos segundo um padrão e afirmando que um deles é mais conforme a esse padrão que o outro. O padrão que os mede, no entanto, difere de ambos. Você está, na realidade, comparando as duas coisas com uma Moral Verdadeira e admitindo que existe algo que se pode chamar de O Certo, independentemente do que as pessoas pensam; e está admitindo que as ideias de alguns povos se aproximaram mais desse Certo que as ideias de outros povos. Ou, em outras palavras: se as suas noções morais são mais verdadeiras que as dos nazistas, deve existir algo – uma Moral Verdadeira – que seja o objeto a que essa verdade se refere”[4]

Como de costume, ele trabalha com analogias, que nos ajudam a entender o pensamento:

“A razão pela qual sua concepção de Nova York pode ser mais verdadeira ou mais falsa que a minha é que Nova York é um lugar real, cuja existência independe do que eu ou você pensamos a seu respeito. Se, quando mencionássemos Nova York, tudo o que pensássemos fosse ‘a cidade que existe na minha cabeça’, como é que um de nós poderia estar mais próximo da verdade do que o outro? Não haveria medida de verdade ou de falsidade. Do mesmo modo, se a Regra da Boa Conduta significasse simplesmente ‘tudo que cada povo aprova’, não haveria sentido em dizer que uma nação está mais correta do que a outra, nem que o mundo se torna moralmente melhor ou pior”[5]

Norman Geisler e Frank Turek, no excelente livro “Não tenho fé suficiente para ser ateu” (certamente o melhor livro apologético que já li), resumem este pensamento da seguinte maneira:

“Se a lei moral não existe, então não existe diferença moral entre o comportamento de Madre Teresa e o de Hitler. Do mesmo modo, afirmações como ‘assassinar é um mal’, ‘o racismo é errado’ ou ‘você não deve abusar de crianças’ não possuem significado objetivo. São simplesmente as opiniões de alguém, expostas ao lado de declarações como ‘o gosto do chocolate é melhor que o da baunilha’. De fato, sem a lei moral, termos simples carregados de valor como ‘bom’, ‘mau’, ‘melhor’ e ‘pior’ não teriam significado objetivo quando fossem usados no sentido moral. Mas nós sabemos que possuem significado. Quando dizemos, por exemplo, ‘a sociedade está melhorando’ ou ‘a sociedade está piorando’, estamos comparando a sociedade a algum padrão moral que está além de nós mesmos. Esse padrão é a lei moral que está escrita em nosso coração”[6]

Assim sendo, a própria alegação de que a moral é relativa e que uma pode ser melhor do que a outra depende de um padrão absoluto de moralidade e implica que a moral é objetiva. É muito curioso observar que estes mesmos indivíduos inconstantes e mentalmente confusos que afirmam que a moral é subjetiva são os mesmos que estão sempre propondo alguma teoria para tornar o mundo um lugar melhor. A maioria deles é adepta do socialismo, que, segundo eles (e apenas segundo eles), existe para fazer “o mundo melhor”. Eles estão totalmente convictos de que a moral socialista é superior à moral daqueles porcos capitalistas burgueses da elite branca opressora.

Mas como eles podem querer implantar o socialismo no mundo, se a moral é subjetiva, e, portanto, não há nenhum padrão objetivo de moralidade para se comparar um com o outro e dizer que este é melhor? Se princípios como igualdade, desenvolvimento e a superação da pobreza não são valores morais absolutos, então não há como dizer que o socialismo é moralmente superior ao capitalismo, ou vice-versa. É necessário a existência de um padrão objetivo, e nós, seres humanos, apenas lutamos e nos esforçamos por chegar o mais próximo possível deste padrão.

Por outro lado, se o próprio padrão é subjetivo, então alguém que dissesse que quer superar a fome no mundo não estaria sendo mais moral do que aquele que afirmasse que quer ver todos os pobres morrendo de fome. Também não seria possível provar que o seu padrão está certo e o padrão do outro está errado, pois não existiria certo e errado nesta questão. Sem um padrão objetivo, a questão se reduz às subjetividades de cada indivíduo, sem a mínima chance de alguém estar certo e o outro errado, pela falta de um padrão que determine isso, e que esteja acima de todos nós, a quem devemos obediência.

Nem o próprio Dawkins poderia ser um relativista moral (ele não é), porque ele crê que a religião é objetivamente má para o mundo. Ele não poderia afirmar isso se fosse um relativista, que crê na moralidade subjetiva. Imagine o peso argumentacional que se perderia de uma só vez se ele afirmasse em seu livro que todos os seus ataques à religião são apenas uma opinião pessoal subjetiva que não está mais certa do que a opinião pessoal subjetiva dos “fundamentalistas” cristãos. O próprio fato de Dawkins dizer que a religião é má exige um padrão objetivo para a bondade e a maldade, ou senão não haveria qualquer sentido lógico em dizer que a religião é má.

Se o mal é qualquer coisa que as pessoas achem que é mal, e o bem é qualquer coisa que as pessoas pensem que é bom, então Dawkins dizer que a religião é má não tem nenhum peso maior do que um pastor qualquer que diga que a religião é boa, ou um padre que diga que o ateísmo que é mau. Nenhum argumento deveria ser levado em conta, pois todos eles careceriam de um padrão objetivo para serem validados. Por exemplo, ele não poderia dizer que a religião é má porque muitas guerras existem por causa da religião, sem provar antes que a guerra é má. Mas para provar que a guerra é má ele precisa de um padrão objetivo que aponte isso, o que ele não teria se fosse um relativista moral.

Se a moral é subjetiva, então eu poderia achar que a guerra é boa em si mesma, e que pessoas morrerem também é, e ninguém poderia usar o argumento da guerra para me convencer que a religião é má. Para usar contra a religião o argumento das guerras e da violência, é preciso primeiro estabelecer o padrão de que toda guerra é má em si mesma, assim como a morte de inocentes, decorrente de toda guerra. Este padrão só poderia ser estabelecido se fosse objetivo, ou seja, se fosse absolutamente verdadeiro independentemente da nossa opinião a respeito.

Se este padrão também é subjetivo, ninguém teria nenhuma razão para condenar coisa alguma, nem para considerar nada bom ou mal. No fim das contas, toda a argumentação dependeria de um pressuposto anterior, e sem um pressuposto objetivo nada poderia ser estabelecido, nada poderia ser louvado, nada poderia ser abominado. Mas se temos de fato um pressuposto objetivo – como o de que a morte de inocentes é má – podemos (e devemos) fazer aplicações em cima disso e definir aquilo que é certo e aquilo que é errado no mundo a nossa volta. É por isso que podemos objetivamente dizer que o grupo terrorista chamado Estado Islâmico é mau – porque assassina inocentes de forma premeditada e deliberada, o que contradiz uma moral objetiva.

Se Deus não existe, quem determina o que é moralmente certo e errado são os seres humanos. Um pedófilo poderia alegar que sob a sua perspectiva aliciar crianças é bom, então a pedofilia não é um mal moral, e usaria isso para molestar crianças indefesas. Um estuprador poderia igualmente sustentar que sob a sua perspectiva não há nenhum problema em estuprar mulheres, e se não houvesse um padrão absoluto e objetivo de moralidade não teríamos como rebater a argumentação subjetiva dele, assim como não teríamos como refutar alguém que diga que é biscoito e não bolacha. Um critério puramente subjetivo não pode refutar ou se sobrepor a outro critério subjetivo. Um critério objetivo, que sirva como a medida exata para julgar as ações de todos, pode.

Como Geisler e Turek disseram, “sem uma fonte objetiva de moralidade, todas as assim chamadas questões morais nada mais são do que preferências pessoais. Hitler gostava de matar pessoas, e Madre Teresa gostava de ajudá-las. A não ser que exista um padrão além de Hitler e de Madre Teresa, ninguém está realmente cerro ou errado – é simplesmente a opinião de uma pessoa contra a de outra”[7]. Mas a realidade mostra algo totalmente diferente. “Você não tem a mesma reação diante de alguém que diz: ‘Esta refeição estava maravilhosa!’ quando essa pessoa também diz: ‘O Holocausto foi maravilhoso!’”[8].

O próprio Richard Dawkins havia afirmado em 1986:

“Em um Universo de forças físicas cegas e replicação genética, algumas pessoas vão se machucar, outras vão ter sorte, e não se achará nenhuma poesia ou razão nele, tampouco justiça. O Universo que observamos possui precisamente as propriedades que devemos esperar se, em realidade, não há nenhum desígnio, nenhum propósito, nenhum mal ou bem, nada senão a impiedosa indiferença cega[9]

O leitor com um raciocínio lógico mais apurado logo perceberá que essa afirmação de Dawkins é autocontraditória e, portanto, anula a si mesma. Por quê? Porque Dawkins, logo após dizer que não existe bem ou mal, afirma que existe uma impiedosa indiferença cega. Mas como ele pode saber o que é impiedoso, se não existe bem ou mal? Desta forma, a própria conclusão dele sobre o Universo refuta a si mesma e prova que até os relativistas morais creem, mesmo que subconscientemente, em uma moral objetiva, em algum padrão de piedade pelo qual possam chamar algo de impiedoso, mesmo que da boca para fora neguem que exista bem ou mal.

É sempre interessante debater com relativistas morais, porque, lá no fundo, até eles mesmos sabem que estão errados. Faça o teste. Comece perguntando se existe verdade absoluta (objetiva). Ele, é lógico, vai responder que não, e provavelmente vai citar uma meia dúzia de exemplos de coisas subjetivas (entre elas as que eu já citei aqui). Depois de ouvir todo o discurso artificialmente bonito de seu interlocutor, pergunte se o estupro de bebês é absolutamente errado, i.e, se é uma verdade absoluta que o estupro de bebês é errado.

Em todos os casos que eu já vi, eu conseguia sentir o desconforto e a vergonha que o outro estava passando, em uma verdadeira luta interior entre o seu discurso intelectual comprado da mídia ou da universidade, e sua consciência moral que leva dentro de si. Ele se debruça e se debate interiormente, em uma guerra consigo mesmo, pois sabe qual seria a resposta automática a dizer, mas reluta enormemente em dizê-la, pois sabe que é uma resposta imoral. Paradoxalmente, ele não pode nem mesmo reconhecer que está tendo este conflito interno, pois isso seria o mesmo que admitir que há algo em si mesmo que objetivamente lhe diz que estuprar bebês é errado, mesmo que sua subjetividade intelectual o force a dizer o contrário!

Todos eles emudecem e ficam um bom tempo pensando na resposta enquanto o cérebro fica em bug, pois sabe que se dizer que o estupro de bebês não é objetivamente errado estará contrariando sua própria consciência moral e estará dando demonstração de que é um monstro moral em potencial, como uma terrível ameaça às pessoas de bem, que sabem que estuprar bebês é errado. Uma pessoa que relativiza o estupro de bebês não merece estar andando solta na rua. Ela é mais perigosa do que a maioria dos bandidos que já estão na cadeia. Por outro lado, se disser que sim – que o estupro de bebês é objetivamente errado – ele derruba em uma única palavra toda a sua tese de relativismo moral e de verdade subjetiva, e o debate termina ali.

Como ninguém gosta de perder debates e muito menos de se autoproclamar um monstro moral, a resposta mais comum é evasiva, do tipo: “Não faça isso comigo, Lucas! Por que você precisa levar o assunto aos extremos?”. Mas é exatamente este o ponto. Se existe um único exemplo de verdade absoluta e moralidade objetiva, já é suficiente para mostrar que existe moralidade absoluta, e este único exemplo sozinho já seria o bastante para nos levar à segunda questão: da onde este padrão objetivo veio? E os ateus perdem mais neste ponto do que no anterior, pois é impossível provar que mecanismos evolucionistas de seleção natural formem uma moralidade objetiva da maneira que vemos hoje (trataremos desta segunda questão mais adiante).

É lógico que não existe só um caso de moralidade objetiva, mas se houvesse apenas um já seria o suficiente. Os biólogos não precisaram encontrar milhares de celacantos para explicar a existência atual do celacanto. Eles viram um único celacanto vivo, e isso já foi o suficiente para derrubar a hipótese de que este peixe já estava extinto há centenas de milhões de anos, e o bastante para começar a explicar o que fez com que este animal estivesse vivo até hoje. Da mesma forma, nós não precisamos de milhões de exemplos de moralidade objetiva. Um único já bastaria para que os ateus nos dessem boas e satisfatórias explicações sobre como eles descobriram objetivamente que o estupro é errado, ainda que seja “certo” na cabeça do estuprador.

O Dr. Craig também experimentou algo parecido comigo em seu testemunho pessoal sobre as discussões com relativistas, dizendo:

“Descobri que, embora as pessoas falem de relativismo da boca para fora, 95% delas pode ser rapidamente convencidas de que os valores morais objetivos de fato existem. Tudo que é preciso é dar algumas ilustrações e deixar que decidam por si mesmas. Pergunte a elas o que pensam da prática hindu de queimar viva uma viúva no funeral do marido, ou o que pensam do costume chinês de aleijar mulheres pelo resto da vida, ao atar seus pés desde a infância para que fiquem parecidos com flores de lótus. Você pode deixar a questão especialmente eficaz ao citar atrocidades morais cometidas em nome da religião. Pergunte a elas o que pensam das Cruzadas e da Inquisição. Pergunte a elas se acham certo que padres católicos abusem sexualmente de garotos pequenos e se é normal a igreja tentar encobri-los. Se você estiver lidando com alguém que seja honesto em seus questionamentos, posso garantir que em praticamente todos os exemplos citados essa pessoa vai concordar que existem valores e deveres morais objetivos”[10]

O Dr. Alan Myatt, meu professor no mestrado, contou uma história real sobre o ocorrido em uma reunião em certa “Sociedade Anarquista”. Ele primeiro se assustou com o fato de anarquistas terem uma “sociedade”. Depois disse que, em uma das reuniões, o líder dali estava ensinando que não existe verdade absoluta e nem moral objetiva, mas que cada verdade é definida particularmente por cada indivíduo. Nisso, um dos ouvintes dali pegou a caixinha de doações e saiu correndo. O líder dali saiu em disparada atrás dele, o agarrou pela camisa e começou a dar sermões:

– Como você pode ter feito uma coisa dessas?

– Ué... mas você não disse que não existe essa coisa de “verdade”, e que cada um define a sua própria verdade?

– Disse...

– Então. Essa é a minha verdade. Na minha concepção de verdade, eu posso roubar essa caixinha.

E, de fato, o líder dali não podia provar que a atitude daquela pessoa estava objetivamente errada, porque, se a moral é relativa, ninguém pode objetivamente afirmar que o outro está errado, e o líder dali teria tanta razão em dizer que a atitude daquele membro estava errada quanto aquele membro tinha razão em dizer que estava certa – ambos partiam de critério nenhum, mas da pura subjetividade. Sem um critério ou padrão objetivo e acima de todos nós, não podemos considerar nada realmente certo ou errado – nem mesmo o roubo daquele indivíduo.

Geisler e Turek também falam sobre um caso de um professor de um curso de ética, que pediu um trabalho de final de semestre aos seus alunos. Ele disse que os alunos deveriam escrever sobre qualquer aspecto ético de sua escolha, pedindo apenas que cada qual respaldasse adequadamente sua tese com justificativas e provas autênticas.

Um dos alunos, ateu, escreveu de maneira eloquente sobre a questão do relativismo moral. Ele argumentou da seguinte maneira: "Toda moralidade é relativa; não existe um padrão absoluto de justiça ou retidão; tudo é uma questão de opinião: você gosta de chocolate, eu gosto de baunilha”, e assim por diante. Seu trabalho apresentou tanto suas justificativas quanto as provas comprobatórias exigidas. Tinha o tamanho certo, foi concluído na data e entregue numa elegante capa azul.

Depois de ler todo o trabalho, o professor escreveu bem na capa: "Nota F; não gosto de capas azuis!". Quando recebeu seu trabalho de volta, o aluno ficou enraivecido. Foi correndo até a sala do professor e protestou:

– "Nota F; não gosto de capas azuis!". Isso não é justo! Isso não é certo! Você não avaliou o trabalho pelos seus méritos!

Levantando a mão para acalmar o irado aluno, o professor calmamente respondeu:

– Espere um minuto. Fique calmo. Eu leio muitos trabalhos. Deixe-me ver... seu trabalho não foi aquele que dizia que não existe essa coisa de justiça, retidão, correção?

– Sim.

– Então que história é essa de você vir até aqui e dizer que isso não é justo, que não é certo? Seu trabalho não argumentou que tudo é uma questão de gosto? Você gosta de chocolate, eu gosto de baunilha?

– Sim, essa é a minha ideia.

– Então, está tudo certo. Eu não gosto de azul. Sua nota é F!

De repente, surgiu a lâmpada acima da cabeça do aluno. Ele percebeu que, na realidade, acreditava nos absolutos morais. Acreditava pelo menos na justiça. Além do mais, estava acusando seu professor de injustiça por dar-lhe uma nota F baseando-se apenas na cor da capa. Esse fato simples destruiu toda a sua defesa do relativismo.

Geisler e Turek então concluem:

“Aqui, o aluno percebeu a existência de um padrão absoluto de retidão por meio da maneira pela qual ele reagiu ao tratamento do professor. Da mesma maneira, posso não considerar que roubar é errado quando roubo de você. Mas veja quão moralmente ultrajado me sinto quando você me roubar. Nossas reações também indicam que o relativismo é, por fim, impossível de ser vivido”[11]

Impossível de ser vivido. Este é o problema dos relativistas morais: ensinam coisas que jamais poderiam ser colocadas em prática. C. S. Lewis nos pede para imaginarmos “um país que admirasse aquele que foge do campo de batalha, ou em que um homem se orgulhasse de trair as pessoas que mais lhe fizeram bem. O leitor poderia igualmente imaginar um país em que dois e dois são cinco”[12]. Este país, obviamente, não existe, porque todos eles admitem a existência de uma moralidade objetiva, razão pela qual existem leis, e razão pela qual as leis dos mais diferentes países são concomitantes entre si em diversos aspectos.

O assassinato é um crime no Brasil tal como é um crime no Japão; o estupro é um crime nos Estados Unidos tal como é um crime na África do Sul; a pedofilia é um crime na França tal como é um crime na Arábia Saudita. Como o professor Jay Budziszewski disse, “todo mundo conhece certos princípios. Não existe uma terra onde o assassínio seja uma virtude e a gratidão seja um defeito”[13]. C. S. Lewis acrescenta que “se alguém se der ao trabalho de comparar os ensinamentos morais dos antigos egípcios, dos babilônios, dos hindus, dos chineses, dos gregos e dos romanos, ficará surpreso, isto sim, com o imenso grau de semelhança que eles têm entre si e também com nossos próprios ensinamentos morais”[14].

Ele também afirma:

“Os povos discordaram a respeito de quem são as pessoas com quem você deve ser altruísta – sua família, seus compatriotas ou todo o gênero humano; mas sempre concordaram em que você não deve colocar a si mesmo em primeiro lugar. O egoísmo nunca foi admirado. Os homens divergiram quanto ao número de esposas que podiam ter, se uma ou quatro; mas sempre concordaram em que você não pode simplesmente ter qualquer mulher que lhe apetecer”[15]

Há dezenas de aspectos morais que são reconhecidos universalmente, porque fazem parte da moralidade absoluta. A própria declaração de independência dos Estados Unidos reconhece oficialmente a existência desta lei moral, ao dizer:

“Consideramos que essas verdades são autoevidentes, que todos os homens foram criados iguais, que receberam de seu Criador certos direitos inalienáveis, dentre os quais a vida, a liberdade e a busca pela felicidade”

Como vemos, os pais fundadores acreditavam na existência da lei moral, que consideravam “autoevidente”, e não a atribuíam ao “nada” ou ao “acaso”, mas ao Criador, i.e, a Deus. Eles reconheciam a lei e o Autor da lei, diferentemente dos ateus, que ou não reconhecem a lei, ou não reconhecem que a lei tem um Autor. Geisler e Turek mais uma vez fazem um importante comentário em torno disso:

“Jefferson e os outros fundadores reconheciam que havia uma autoridade superior – o ‘Criador’ – a quem poderiam apelar para estabelecer bases morais objetivas para sua independência. Se tivessem começado a declaração com a frase: ‘Consideramos essas opiniões como nossas...’ (em vez de ‘verdades’ ‘autoevidentes’), não teriam expressado uma justificativa moral objetiva para sua declaração de independência. Aquilo teria sido simplesmente sua opinião, contrária à do rei George. Desse modo, os fundadores apelaram para o ‘Criador’ porque acreditavam que sua lei moral era o padrão definitivo de certo e errado que justificaria a sua causa. Sua causa era pôr fim ao governo do rei George sobre as colônias americanas. Eles estavam convencidos de que o governo de George precisava terminar porque estava violando os direitos humanos básicos dos colonos”[16]

A moralidade objetiva é a base da constituição de cada país do globo terrestre, porque o contrário a isso resulta na anarquia e no caos. Imagine um país que não tivesse leis proibindo o estupro, por pensar que o estupro é meramente uma questão de opinião pessoal (o estuprador acha certo estuprar; o que está sendo estuprado discorda), ou um país que não prendesse nenhum traficante, por achar que o tráfico é certo sob a perspectiva dos traficantes, ou mesmo um país que dispensasse a polícia e não tivesse presídios, por acreditar que, seja lá o que for que as pessoas fizerem, faz parte da subjetividade delas, é verdade sob a perspectiva delas e temos que respeitá-las, pois não há nenhum padrão maior que elas para decidir puni-las.

Eu não viveria em um país desses, e eu tenho certeza que nem os relativistas viveriam em um país onde as suas ideias fossem colocadas em prática. O país onde o relativismo moral fosse colocado em prática se tornaria um caos antes do segundo dia. O próprio Dawkins conta em seu livro sobre o que aconteceu em 17 de outubro de 1969, quando a polícia de Montreal entrou em greve. A cidade virou palco do Apocalipse[17]. A verdade é que a moralidade objetiva é tão autoevidente que está implícita em toda e qualquer lei, de toda e qualquer sociedade que já existiu na face da Terra.

Se a moralidade objetiva não existe, por que prender os bandidos? A prisão só acontece sob o pressuposto de que o criminoso está errado (se não estivesse errado, não seria considerado crime). Se essa moralidade objetiva não existe, toda a questão se resumiria a opiniões pessoais. O estuprador acharia que matar é certo, enquanto a polícia acharia que não. Qual é a base dos relativistas morais para fazer a opinião pessoal dos policiais prevalecer sobre a opinião pessoal dos bandidos? A não ser que o estupro seja em si mesmo objetivamente errado, os policiais não teriam nenhuma base moral para culpar o bandido maior do que o bandido teria para considerar seu ato correto.

Se o estupro é objetivamente errado, então a opinião (subjetividade) do estuprador não valeria absolutamente nada, e está certo que ele seja preso contra a sua vontade ou mesmo opinião pessoal. Mas se o estupro não é objetivamente errado, a base da moralidade volta a ser meras opiniões pessoais subjetivas que não deveriam prevalecer umas sobre as outras sem a existência de uma base moral superior e acima de qualquer subjetividade. De fato, as leis civis de cada país são apenas um reflexo de que cada povo sempre entendeu que a moral é objetiva, razão pela qual certas coisas são consideradas objetivamente erradas e, portanto, passíveis de punição.

As pessoas podem até divergir nos meios para se chegar à moralidade objetiva, mas não na própria moralidade objetiva. Esta é uma diferença fundamental que passa despercebida pelos relativistas morais. Eles pensam que temas polêmicos como o aborto provam que a moralidade é subjetiva. Na verdade, o que ocorre é exatamente o contrário. Tanto os ativistas do aborto quanto os ativistas pró-vida creem em um valor moral objetivo chamado liberdade. A diferença é que os abortistas, por não considerarem o feto um ser humano, defendem somente a liberdade da mulher, enquanto os ativistas pró-vida, por entenderem que o feto é um ser vivo, defendem o direito mais primordial de todos – o da vida –, que prevalece sobre os direitos inferiores (como o de fazer o que quiser com o próprio corpo).

Assim, o problema do aborto não é uma evidência de moralidade subjetiva, ao contrário: é uma evidência de que existe moralidade objetiva (liberdade), que os abortistas aplicam em primeiro lugar para a vontade da mãe, e os pró-vida aplicam em primeiro lugar para a sobrevivência do bebê. Se não houvesse padrão objetivo nenhum, matar ou não matar o bebê não faria diferença nenhuma, e sequer haveria razão de debate. A questão seria tão irrelevante quanto se devemos matar ou não um pernilongo que nos incomoda. O debate só existe porque existe um padrão absoluto de moralidade, de modo que os dois grupos podem discutir sobre o que se aproxima mais deste padrão objetivo, que mede o que é certo e errado.

Geisler e Turek resumem muito bem esta questão nas seguintes palavras:

“A controvérsia sobre o aborto existe porque cada lado defende o que acha ser um valor moral absoluto: proteger a vida e permitir a liberdade (i.e., permitir que uma mulher ‘controle seu próprio corpo’). A controvérsia dá-se em relação a quais valores se aplicam (ou assumem precedência) à questão do aborto. Se os não nascidos não fossem seres humanos, então o valor pró-liberdade deveria ser aplicado na legislação. Contudo, uma vez que o não nascido é um ser humano, o valor pró-vida deveria ser aplicado na legislação, pois o direito de uma pessoa à vida sobrepõe-se ao direito de outra pessoa à liberdade individual (o bebê não é simplesmente uma parte do corpo da mulher; ele tem seu próprio corpo, com seu código genético único, seu próprio tipo sanguíneo e seu gênero)”[18]

A mesma coisa se aplica aos “dilemas morais”, como o de Denise, já retratado no livro de Dawkins:

“Uma pessoa, Denise, está num centro de controle em condições de mandar o bonde para um desvio, salvando portanto a vida das cinco pessoas presas na linha principal. Infelizmente há um homem preso no desvio. Mas, como ele é apenas um, menos que as cinco pessoas presas na linha principal, a maioria das pessoas concorda que é moralmente permissível, se não obrigatório, que Denise mexa no controle e salve os cinco, matando o homem do desvio”

Mais adiante Dawkins nos diz que nos experimentos de Hauser chegaram à conclusão de que 95% das pessoas disseram que era permissível ou obrigatório desviar o vagão, matando um para salvar cinco (resultado este padrão tanto entre ateus quanto entre crentes). O que alguns relativistas morais dizem acerca de “dilemas” como esses é que eles provam que a moralidade é subjetiva (já que 5% se posicionaram contra). O que ocorre na realidade é exatamente o oposto, isso porque 100% deles concordaram que assassinar seria errado.

Os dois grupos criam que o assassinato era objetivamente errado, ainda que um grupo menor demonstrasse mais compaixão pelo homem preso no desvio do que pelos cinco passageiros. Não há diferença na moralidade em si (ambos concordam que assassinar seria errado), mas somente na prioridade. A escolha era entre o mau e o menos mau, mas todos concordam que matar um ou matar cinco seria mau. É por isso que às vezes a guerra, ainda que má, é necessária: para se evitar um mal maior.

Imagine como o mundo seria se os Aliados se recusassem a batalhar contra os nazistas e estes dominassem o mundo com sua ideologia de terror. Ou como seria caso nem os EUA nem ninguém mais fizesse frente ao Estado Islâmico e sua ideologia de dominação mundial e morte aos “infiéis” (dentro os quais estão inclusos as centenas de jornalistas decapitados em frente às câmeras), ou como seria a vida dos iraquianos sob o regime brutal de Saddam Hussein, que já havia assassinado centenas de milhares de civis inocentes antes da intervenção norte-americana.

Isso nem sempre é claro para os cidadãos de bem que acompanham as guerras pelo noticiário da TV. Mas o que importa é que mesmo aqueles que se opõem nestes dilemas morais só se opõem porque são contrários ao assassinato, o que não faria sentido caso o assassinato não fosse objetivamente mau. É exatamente porque as pessoas consideram o assassinato errado que existe o “dilema”, pois no dilema alguém é assassinado de qualquer jeito. Este dilema não existiria se a moral fosse subjetiva e o assassinato não fosse objetivamente mau. 

O que é mais interessante nisso tudo é que os resultados destes dilemas morais são os mesmos, mesmo quando a pesquisa é feita com tribos indígenas que não tem quase nenhum contato com a civilização ocidental. Dawkins fala sobre isso em seu livro também:

“Numa incursão intrigante na antropologia, Hauser e seus colegas adaptaram seus experimentos morais aos kuna, uma pequena tribo da América Central que mantém pouco contato com os ocidentais e não possui religião formal. Os pesquisadores mudaram a experiência de pensamento do ‘vagão na linha de trem’ para equivalentes mais adequados, como crocodilos nadando na direção de canoas. Com as pequenas diferenças correspondentes, os kuna mostram os mesmos juízos morais que a maioria de nós

Isso mostra, mais uma vez, que essa consciência moral que possuímos não é fruto do “meio”, nem pensamos assim porque nos foi ensinado pelos pais (afinal, quantas vezes não discordamos de nossos pais em tantas outras coisas?), mas se trata de uma lei de consciência universal que cada pessoa carrega consigo desde o nascimento. É por isso que o padrão deste senso de moralidade é o mesmo entre os ocidentais e os orientais, entre os religiosos e não-religiosos, entre os indígenas e os europeus. Há contrastes gigantescos entre eles em termos culturais, mas, curiosamente, em questão de moral há uma impressionante similaridade de princípios.

Ainda há aqueles que apelam à velha questão das bruxas. Por que não matamos mais bruxas hoje em dia? Os relativistas usam isso como uma “prova” de que a moralidade mudou. Na verdade, não foi a moralidade que mudou, mas o conceito em relação às bruxas. Hoje em dia, com o avanço de conhecimento, sabemos que bruxas (no sentido medieval do termo) não existem, e por essa razão é sem sentido matar uma.

Mas, como disse Lewis, “se realmente pensássemos que existem pessoas entre nós que venderam a alma para o diabo, receberam em troca poderes sobrenaturais e usaram esses poderes para matar ou enlouquecer os vizinhos, ou para provocar calamidades naturais, certamente concordaríamos que, se alguém merecesse a pena de morte, seriam essas sórdidas traidoras”[19]. O que houve foi um avanço de conhecimento, e não um avanço na moralidade. Como Lewis observa, “não existe avanço moral algum em deixar de executá-las quando pensamos que elas não existem. Não consideraríamos misericordioso um homem que não armasse ratoeiras por não acreditar que houvesse ratos na casa”[20].

Até mesmo quando Hitler quis exterminar os judeus, ele precisou primeiro argumentar que eles eram uma raça sub-humana, numa tentativa de desumanizar os judeus. Tornando os judeus “não-gente”, ele pôde fazer com eles o mesmo que o ser humano faz há milênios com os animais. Se Hitler não tivesse algum senso moral lá no fundo que lhe dissesse que matar um ser humano inocente é errado, ele não precisaria desumanizar os judeus antes de executá-los – bastaria matar e pronto.

É por isso que o racismo é tão abominável: porque ele é o ponto de partida para a desumanização do próximo, e, a partir daí, para tratá-lo como se fosse um animal qualquer. Em outras palavras, até nos maiores déspotas e genocidas havia um senso moral, como em mim e em você, que lhes dizia: “não mate o seu próximo”. Eles precisavam se convencer de que o outro não é seu “próximo”, para depois matarem à vontade.

Como Lewis disse, “se o Certo não for uma entidade real, que os nazistas, lá no fundo, conhecem tão bem quanto nós e tem o dever de praticar, qual o sentido de dizer que o inimigo está errado? Se eles não têm nenhuma noção daquilo que chamamos de Certo, talvez tivéssemos de combatê-los do mesmo jeito, mas não poderíamos culpá-los pelas suas ações, da mesma forma que não podemos culpar um homem por ter nascido com os cabelos louros ou castanhos”[21].

Isso também explica muita coisa sobre o racismo contra negros que foi muito mais forte no passado do que é hoje, embora ainda persista no mundo. Como Dawkins mostrou em seu livro, até homens brilhantíssimos do passado eram racistas. Mas eles eram porque pensavam que o cérebro do homem branco fosse maior e mais evoluído que o cérebro do homem negro, e que na escala evolutiva darwinista o homem negro estaria mais próximo do gorila do que o caucasiano[22], que seria “o tipo mais elevado de todos os homens”[23]. Foram muitos os que usaram o darwinismo para sustentar suas posições racistas. Isso colocava os negros em uma posição de inferioridade, como uma raça sub-humana aos olhos do homem branco.

Com o avanço do conhecimento, essas bobagens foram rechaçadas, e qualquer pessoa decente sabe que brancos e negros estão em pé de igualdade, e que um é tão plenamente humano quanto o outro. Novamente, o que mudou não foi a moralidade em si, mas o conhecimento. Quando pensamos que o outro não é humano, ou não totalmente humano, vamos tratar o próximo como um animal. Mas quando temos o conhecimento de que todos são iguais, este preconceito cai naturalmente, tão logo o conhecimento aumente.

O princípio moral é absoluto (“faça o bem ao seu próximo”), o que não é absoluto é a identificação exata de quem é este “próximo”. As culturas que identificaram o “próximo” como seus pares sempre discriminaram as outras etnias. Jesus precisou estender o sentido comum de “próximo” para incluir até mesmo o povo mais odiado pelos judeus (os samaritanos), como fica nítido da parábola do bom samaritano. Ele estava querendo dizer que o próximo são todos os seres humanos, até os mais “detestáveis”. Todos os que seguiram essa moral concluíram que todos os homens são iguais diante de Deus. Os que a rejeitaram consideraram iguais somente a sua própria etnia ou raça, discriminando as demais.

Assim vemos que por detrás de todas as aparentes evoluções morais nos últimos séculos há um princípio moral absoluto e universal que sempre existiu, e tudo o que aconteceu foi somente que o homem foi chegando mais próximo deste padrão moral absoluto à medida em que foi crescendo em conhecimento. Quando o ser humano deixou de desumanizar o próximo e o reconheceu como igual, o racismo levou o seu mais duro golpe. Sim, Hitler sabia que matar seres humanos era errado. Até ele tinha essa lei moral dentro de si. Mas, para resolver isso, ao invés de deixar de matar preferiu seguir o outro caminho: o de dizer que os judeus não eram gente.

Quando o ex-presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, foi interrogado por jornalistas em 2007 sobre a prática corrente naquele país de executar homossexuais em praça pública, ele tentou se escusar dizendo que em seu país não havia gays[24]. Por que ele simplesmente não disse: “Mato mesmo, e isso não é problema seu!”? Porque até ele tem um senso moral interno que lhe diz que executar pessoas por serem gays é errado. Ele pode tentar suprimir esta consciência interna por meio de outros arrazoados, mas não pode negar que esta lei moral existe, e que esta lei moral condena tal prática.

Mas e o Osama Bin Laden? Eles não achavam que destruir o World Trade Center e matar os milhares que estavam ali dentro era moralmente certo? Geisler e Turek respondem que “isso se deve parcialmente ao fato de que eles não estavam no lado daqueles que recebiam as consequências do crime. Como você acha que Bin Laden teria reagido se tivessem pilotado seus aviões, jogado as aeronaves nos seus edifícios e os seus inocentes tivessem sido mortos? Saberia imediatamente que tal ato fora inegavelmente errado”.

Até os terroristas sabem que assassinar pessoas é errado. Eles não matam por achar que o assassinato em si é uma coisa boa, mas sim porque creem que algo compensa a quebra desta lei moral, como, por exemplo, a imediata recompensa em um Paraíso com 72 virgens para cada mártir. Assim, não há diferença na moralidade em si. A diferença reside no fato de que nós não vemos nenhuma boa razão para quebrar esta lei moral, enquanto eles (os terroristas) acham que vale a pena quebrar esta lei interna que eles também possuem se for por um bem maior, como a destruição de um país inimigo (como os EUA ou Israel) ou um Paraíso.

Se você quer uma prova, pergunte a um serial killer se ele não sabia que assassinar era errado. Ele sabia, mas mata assim mesmo, impulsionado por outros fatores que na cabeça dele pesaram para que ele fosse em frente e matasse. Este é o mal do ser humano: ele sabe o que é o certo, mas nem sempre age certo. A lei moral, diferente da lei gravitacional, não é algo do qual o ser humano não possa fugir. Deus deu um discernimento de certo e errado, mas não nos coage a agir da maneira certa. Ele deu o livre-arbítrio para que nós mesmos tomemos essa decisão. Ele mostra o caminho do bem e do mal, e orienta o homem a seguir o lado bom. Quem, porém, tem a responsabilidade de tomar essa decisão, é o homem.

Da mesma forma que se alguém errar a tabuada não anula o fato de que a tabuada é uma verdade objetiva, o fato de alguém falhar no cumprimento da lei moral não anula o fato de que a moral objetiva existe. C. S. Lewis salienta que “as pessoas podem volta e meia se enganar a respeito deles [dos princípios morais], da mesma forma que às vezes erram numa soma; mas a existência de ambos não depende de gostos pessoais ou de opiniões, da mesma forma que um cálculo errado não invalida a tabuada”[25].

Na verdade, é exatamente por reconhecermos que as pessoas falham que podemos concluir melhor ainda que existe um padrão objetivo de moralidade. Por quê? Porque se esse padrão objetivo não existisse, não existiria a palavra falhar. Para reconhecermos que a falha existe, precisamos ter em mente um padrão objetivo.

Sabemos que um jogador de futebol falhou em sua cobrança de pênalti porque ele não acertou o gol (o objetivo). Mas se não houvesse nenhuma regra que dissesse que o jogador tem que acertar o gol, não diríamos que o jogador falhou, da mesma forma que não dizemos que um aluno falhou em uma questão da prova se todas as alternativas estivessem igualmente certas. Assim, o próprio fato de alguém usar a palavra falha em relação a um comportamento moral prova que a pessoa tem em mente um padrão absoluto do qual todos devem se aproximar o quanto mais.

As próprias divergências também são uma evidência de um padrão objetivo de moralidade. Por quê? Porque “a intenção da discussão é mostrar que o outro está errado. Não haveria sentido em demonstrá-lo se você e ele não tivessem algum tipo de consenso sobre o que é certo e o que é errado, da mesma forma que não haveria sentido em marcar a falta de um jogador de futebol sem que houvesse uma concordância prévia sobre as regras do jogo”[26]. C. S. Lewis volta a falar sobre este padrão objetivo ao citar acontecimentos do cotidiano, tais como:

“Dizem, por exemplo: ‘Você gostaria que fizessem o mesmo com você?’; ‘Desculpe, esse banco é meu, eu sentei aqui primeiro’; ‘Deixe-o em paz, que ele não lhe está fazendo nada de mal’; ‘Por que você teve de entrar na frente?’; ‘Dê-me um pedaço da sua laranja, pois eu lhe dei um pedaço da minha’; e: ‘Poxa, você prometeu!’. Essas coisas são ditas todos os dias por pessoas cultas e incultas, por adultos e crianças. O que me interessa em todos estes comentários é que o homem que os faz não está apenas expressando o quanto lhe desagrada o comportamento de seu interlocutor; está também fazendo apelo a um padrão de comportamento que o outro deveria conhecer. E esse outro raramente responde: ‘Ao inferno com o padrão!’. Quase sempre tenta provar que sua atitude não infringiu este padrão, ou que, se infringiu, ele tinha uma desculpa muito especial para agir assim”[27]

Até mesmo essas próprias justificativas evidenciam a existência do padrão absoluto:

“Se não acreditássemos na boa conduta, por que a ânsia de encontrar justificativas para qualquer deslize? A verdade é que acreditamos a tal ponto na decência e na dignidade, e sentimos com tanta força a pressão da Soberania da Lei, que não temos coragem de encarar o fato de que a transgredimos. Logo, tentamos transferir para os outros a responsabilidade pela transgressão. Perceba que é só para o mau comportamento que nos damos ao trabalho de encontrar tantas explicações. São somente as fraquezas que procuramos justificar pelo cansaço, pela preocupação ou pela fome. Nossas boas qualidades, atribuímo-las a nós mesmos”[28]

Está claro, portanto, que uma moral objetiva existe. Resta-nos agora conferir as explicações naturalistas de Dawkins para a moralidade, a fim de descobrir se elas explicam satisfatoriamente o nosso senso moral de certo e errado.


Quem é o autor da lei moral?

Dawkins evoluiu da primeira para a segunda premissa ao longo de vinte anos. Em 1986, em seu livro “O Relojoeiro Cego”, ele havia escrito que “em um Universo de forças físicas cegas e replicação genética, algumas pessoas vão se machucar, outras vão ter sorte, e não se achará nenhuma poesia ou razão nele, tampouco justiça. O Universo que observamos possui precisamente as propriedades que devemos esperar se, em realidade, não há nenhum desígnio, nenhum propósito, nenhum mal ou bem, nada senão a impiedosa indiferença cega.

Misteriosamente, essa afirmação de que não existe mal ou bem desaparece completamente em seu trabalho mais famoso, escrito vinte anos mais tarde. Dawkins não faz qualquer objeção ao argumento teísta de que existe moral objetiva, o que significa, pelo menos, uma evolução em relação ao seu pensamento anterior. Mas a forma com que Dawkins se propõe a explicar a existência de moralidade objetiva sem ter Deus como fonte fracassa tão miseravelmente e é tão insatisfatória que seria melhor que ele tivesse mesmo se limitado a dizer que não existe mal ou bem, senão apenas a impiedosa indiferença cega.

Isso porque os mecanismos darwinistas de mutação e seleção natural não podem oferecer uma moralidade objetiva, de forma com que possamos dizer objetivamente que isso é errado, e aquilo certo[29]. Um exemplo bem objetivo e simples é o do tubarão branco, que costuma copular à força com uma fêmea da sua espécie. Nenhuma pessoa, no entanto, chama isso de estupro ou considera moralmente mau, como seria caso um ser humano tivesse relação à força com uma pessoa do sexo oposto. Como a seleção natural pode explicar o porquê que quando um tubarão copula à força não é moralmente mau, mas quando um ser humano faz a mesma coisa é moralmente mau?

O darwinista não pode, utilizando-se simples e meramente dos mecanismos evolucionistas, fazer distinção moral entre a cópula forçada do tubarão baleia e sexo forçado de um humano com outro da mesma espécie. A seleção natural apenas diz como e por que uma espécie faz isso, mas não pode dizer se isso é bom ou mal, e muito menos pode fazer essa distinção tão necessária entre uma coisa e outra, que temos claramente em nossa mente.

Nenhum ser humano considera o tubarão branco mau por copular à força com uma fêmea da sua espécie, mas consideramos seres humanos maus se eles fazem o mesmo com uma mulher. Essa distinção não haveria caso ambos os casos se tratassem nada a mais que a pura seleção natural. Se a seleção natural fosse a única explicação moral existente (de onde tiramos o nosso padrão objetivo de moralidade), deveríamos achar um estupro tão “normal” e “aceitável” quanto a cópula forçada do tubarão branco.

Um darwinista não pode fazer essa importantíssima distinção moral usando a seleção natural, pois é essa mesma seleção natural que teria atuado sobre as duas espécies. Se ele quisesse mesmo fazer esta distinção e oferecer alguma razão moral que separasse os dois exemplos deveria apelar para uma outra fonte de conhecimento, fora dos mecanismos darwinistas, e que desse essa nossa noção de que o estupro é moralmente inaceitável.

Os teístas conseguem isso facilmente ao alegar que essa noção vem da lei moral que nos foi dada pela Causa primeira (Deus), mas os ateus, que não creem na Causa primeira nem na lei moral, não podem apelar a mais nada, restando-lhes a infeliz conclusão de que não há diferença moral entre a cópula forçada do tubarão branco e o sexo forçado (estupro) de um ser humano. Mesmo se os ateus conseguissem explicar pela seleção natural o porquê que tubarões e humanos copulam à força, ele não poderia dar uma razão satisfatória de por que o primeiro caso é normal e o segundo é imoral, utilizando-se somente da mesma causa da seleção natural que regeu ambos os casos.

Coincidentemente ou não, alguns pensadores ateus darwinistas tem se manifestado em favor do estupro por causa da seleção natural. Randy Thornhill e Craig Palmer escreveram um livro onde defendem a tese de que o estupro é “um fenômeno biológico que é produto da herança evolucionária humana, semelhante a coisas como as manchas do leopardo e o pescoço comprido da girafa”[30]. Como Dawkins pode refutar esta lógica, segundo a qual o estupro é somente uma consequência natural da evolução, colocada lado a lado com o pescoço comprido da girafa?

Ele não pode, e de fato é de se espantar que em todo o livro The God Delusion ele não tenha dado nenhum argumento pelo qual a seleção natural diz que é moralmente errado estuprar alguém, muito menos ainda refuta qualquer dos vários autores darwinistas e ateus como ele que sustentam o estupro através dos mecanismos evolucionistas. Dawkins não diz que estuprar não é moralmente errado, mas não nos fala nada sobre como a seleção natural sozinha poderia nos dar essa percepção, nem como que essa percepção seria algo totalmente distinto do resto do mundo animal, e muito menos interage com os autores darwinistas que sustentam o estupro, nem tenta refutá-los usando a mesma base (seleção natural), porque sabe que não pode.

Se Dawkins quisesse refutá-los, teria que lançar mão de algum argumento moral fora da seleção natural, e neste momento estaria violando sua fé no naturalismo e sua descrença em Deus. Isso porque o darwinismo sozinho não pode definir o que é moralmente bom ou mal, porque a seleção natural não é por natureza nem má nem boa, a não ser que a atribuam inteligência e personalidade.

Geisler e Turek entenderam bem este ponto e assinalaram:

“Se existem apenas coisas materiais, então o homicídio e o estupro nada mais são do que os resultados de reações químicas no cérebro de um criminoso que afloraram por meio da seleção natural. Além disso, o homicídio e o estupro não podem estar objetivamente errados (i.e., contra a lei moral) porque não existem leis se só existem elementos químicos. As leis morais objetivas exigem um Criador transcendente dessa lei, mas a visão de mundo darwinista excluiu essa possibilidade desde o início. Desse modo, os darwinistas coerentes podem considerar o homicídio e o estupro apenas como aversões pessoais, não como coisas moralmente erradas”[31]

Darwinistas já têm percebido isso há muito tempo e tem assumido a responsabilidade e as consequências de se adotar o evolucionismo como a única explicação para o mundo natural, à parte de qualquer moral divina implantada em nossos corações. O resultado é uma lástima e uma calamidade total em termos morais. O biólogo ateu darwinista W. D. Hamilton, que era membro da Royal Society e muito elogiado por Dawkins em O Gene Egoista (onde Dawkins diz ter uma escrita apaixonada, vívida e informada), afirmava ter mais simpatia por uma única samambaia do que por uma criança chorando, e que a finalidade do sexo era limpar o conjunto genético da população eliminando os inúteis e os fracos.

Ele poderia ter parado por aí, mas ainda acrescentou que o macho de condição baixa (o pobre) tem que morrer, e que tudo na natureza não passa de uma competição de genes. Ele também defendia o assassinato de recém-nascidos (infanticídio) e a eugenia, além de afirmar que a medicina causava dano ao permitir que os fracos sobrevivessem, preservando assim os genes deles[32].

David Robertson ainda afirma:

“O ponto de vista de Hamilton era tão baseado na eugenia que cria ele que as únicas formas aceitáveis de medicina eram analgésicos e cirurgia. Declarava que o genocídio era o resultado de supermelhoramento genético e que ficaria mais triste pela morte de um panda gigante do que por ‘cem chineses desconhecidos’. Também sustentava que os deficientes físicos deveriam ser mortos ao nascer. Em defesa do que ele designou ‘felicidade inclusiva’, afirmou: ‘Tenho poucas dúvidas de que, se tentasse sobreviver numa ilha tipo Robinson Crusoe com minha esposa, realmente mataria com minhas próprias mãos um bebê defeituoso’”[33]

Essa filosofia desumana e pior que o nazismo, totalmente fundamentada na seleção natural, é seguida de perto por diversos outros biólogos e filósofos ateus. Emmanuel Dijon dedicou um tópico inteiro do livro “As Provas da Existência de Deus”[34] para abordar os vários casos de ateus justificando sua moralidade darwinista, de mãos dadas com a eugenia.

Oliver Wendell Holmes, juiz da suprema corte dos EUA, compreendeu que o darwinismo teria ‘derrubado’ a crença religiosa tradicional dos seres humanos serem criados à imagem e semelhança de Deus, e, desta maneira, os valores morais são normalmente reduzidos a nada, pois, sendo os seres humanos uma coleção de átomos e um conjunto de instintos sem significado ou um propósito maior, nem a responsabilidade pessoal e nem mesmo o valor intrínseco da vida humana possuem qualquer posição de destaque.

Clarence Darrow, que defendera o ensino do darwinismo nas escolas públicas no famoso julgamento do macaco de Scopes, em um caso anterior, no julgamento de Leopold e Loeb, em 1924, usou o darwinismo em sua defesa de uma dupla de assassinos de crianças. Neste julgamento, Darrow argumentou que os assassinos eram vítimas de sua herança evolutiva violenta:

“A natureza é forte e cruel. Ela trabalha à sua própria maneira misteriosa, e nós como suas vítimas. Nós mesmos não temos muito a ver com isso. A natureza toma essa incumbência nas mãos, e então desempenhamos os nossos papéis”

Se cada ser humano é vítima da natureza e se o DNA é o destino, um assassino é apenas uma peça no jogo da vida, ninguém pode ser considerado culpado e nem pode ser punido. Holmes defendeu limitar a propagação pelos indesejáveis e matar recém-nascidos que não passassem no teste, e colocou seu pensamento em prática em 1927, no caso de Buck versus Bell.

A mãe de Carrie Buck tinha sido classificada como “débil mental”, um termo aplicado às mulheres pobres e das minorias, independente de elas realmente serem deficientes mentais. Carrie foi colocada em um lar adotivo e ficou grávida de um filho ilegítimo, e sua família adotiva prontamente entregou Carrie à Colônia do Estado da Virgínia para os epiléticos e débeis mentais.

O superintendente, Dr. Albert Sidney Priddy, declarou que ela era “incorrigível”, e se enquadrava na definição legal para débeis mentais. Alegando que a mãe da menina também tinha sido sexualmente imoral e imbecil, ele argumentou que Carrie era uma ameaça genética para a sociedade, e votou em favor da esterilização obrigatória dos deficientes mentais, a fim de melhorar o pool genético das gerações futuras.

A sentença para esterilizar foi dada, mas Carrie Buck, que não era nada débil, lutou contra a decisão até chegar à Suprema Corte, mas infelizmente tanto a Corte quanto Holmes decidiram contra ela em uma votação de 8 a 1. O chefe da Justiça Holmes assinou a decisão da maioria:

“Nós já vimos mais de uma vez que o bem-estar público pode recorrer aos melhores cidadãos por suas vidas. Seria estranho se ele não pudesse apelar para aqueles que já sugaram a força do Estado para esses sacrifícios menores, muitas vezes nem sentidos como tal pelos envolvidos, a fim de evitar sermos inundados pela incompetência. É melhor para todo o mundo que, em vez de esperar para executar os descendentes degenerados por crimes, ou deixá-los morrer de fome por sua imbecilidade, que a sociedade impeça, àqueles que são manifestamente inadequados, de dar continuidade à sua espécie. O princípio que sanciona a vacinação compulsória é amplo o suficiente para cobrir com corte das trompas de Falópio... Bastam três gerações de imbecis”[35]

O Estado esterilizou Carrie em 19 de outubro de 1927. O trágico caso de Carrie não foi um “incidente” isolado. Do início de 1990 até 1958, mais de sessenta mil americanos foram considerados materiais de qualidade inferior e involuntariamente esterilizados, sendo que as minorias e os pobres eram alvos especiais, e muitas das vítimas não seriam consideradas deficientes mentais atualmente. Embora isso mais se pareça com cenas de filmes escabrosos de ficção científica, para nossa profunda tristeza é a mais dura realidade, mas tudo isso ocorreu graças ao movimento eugênico, que possui suas raízes no ateísmo darwinista, i.e, que extrai a moralidade da seleção natural.

Peter Singer, filósofo ateu darwinista, usou o darwinismo para alegar enfaticamente que “a vida de um recém-nascido tem menos valor do que a vida de um porco, de um cachorro ou de um chipanzé”[36]. Como se não bastasse, Singer vai em frente até as últimas consequências morais do naturalismo, afirmando que os pais deveriam poder matar seus filhos até os 28 dias de vida! Sim, você leu corretamente. O aborto, diante disso, é fichinha. Singer almeja o massacre de crianças, e se apoia na “moral” darwinista para isso.

Comentando a filosofia moral de ateus como Singer, Geisler e Turek disseram:

“Essas crenças são perfeitamente coerentes com o darwinismo. Se todos viemos do limo, então não temos bases para dizer que os seres humanos são moralmente melhores, em qualquer medida, do que as outras espécies. A única questão é por que limitar o infanticídio a 28 dias ou, extrapolando, por que não a 28 meses ou a 28 anos? Se não existe um Criador da lei moral, então não existe nada de errado com o assassínio em qualquer idade! É claro que os darwinistas como Singer devem rejeitar essa conclusão, mas eles não têm bases objetivas para discordar a não ser que possam apelar para um padrão que esteja além deles mesmos – o Criador da lei moral”[37]

Você pensa que acabou, mas não. Peter Singer ainda sustenta que “bebês débeis mentais não possuem direitos maiores do que os de certos animais”[38]. Logicamente, ele como ateu diz tudo isso se apegando à seleção natural, que Dawkins afirma ser a única fonte de moralidade no mundo. E isso não é tudo. Nosso brilhante filósofo ateu ainda diz que “o fato de ser um humano não significa que seja errado tirar sua vida (...) matar um recém-nascido não é, sob hipótese alguma, equivalente a matar um adulto, que quer conscientemente continuar vivendo”[39].

Sim, é de cair da cadeira. É uma lástima pensar que um ser humano fica anos fazendo graduação e pós-gradução em filosofia para sair dali com a ideia de que podemos assassinar recém-nascidos porque eles não dizem que querem viver. Simplesmente patético. Um ser humano como esses deveria ser preso, pois incentiva diversos pais a matarem seus filhos, sob a ridícula ideia de que os filhos pequenos não dizem que querem viver, então mate-os.

Uma variante deste pensamento estúpido seria dizer que as crianças pequenas não dizem que não querem ser estupradas, então estupre; ou que as crianças pequenas não dizem que não querem ser torturadas, então torture. Isso também lembra a história do homem que queria se casar com uma cabra. A cabra não disse que não queria se casar, então se casou. É de dar náuseas que um pretenso “filósofo” chegue a conclusões tão estúpidas, que acabam sendo destrutivas contra a vida de milhões de bebês.

Somente um monstro moral poderia dizer que a vida de uma criança inocente e pura tem menos valor que a vida de um adulto, e que por isso podemos matá-las. Mas Singer chega a esta conclusão justamente por meio da seleção natural, comparando com animais e seguindo a lógica darwinista de cabo à rabo, até as últimas consequencias.

O que Dawkins fez a respeito? Escreveu contra ele agressivamente, repudiando até as últimas forças as suas ideias, assim como faz tipicamente com os religiosos? Muito pelo contrário. Ele não apenas não escreveu uma única linha refutando Singer, como também o convidou para seu documentário contra os religiosos e levaram um bate-papo na maior esportiva[40]. Como se isso não bastasse, Dawkins ainda concordou com Singer quanto à prática abominável do infanticídio, i.e, de exterminar recém-nascidos[41]! Esta, senhores, é a “moral” darwinista proveniente pura e simplesmente da seleção natural.

Mas o carnaval não termina por aí. Diversos outros darwinistas de renome nos mostraram as consequencias de se tomar a moral unicamente pela seleção natural. Quer um nome? Hitler. Seu discurso de ódio contra os judeus estava repleto de citações darwinistas, sob a ótica da seleção natural. Ao invés de tirar sua moral de Deus, ele dizia isso:

“Se a natureza não deseja que os indivíduos mais fracos se casem com os mais forres, ela deseja muito menos que uma raça superior se mescle com uma inferior porque, nesses casos, todos os seus esforços para estabelecer um estágio de existência evolucionária superior, realizados durante centenas de milhares de anos, poderiam ter-se mostrado totalmente inúteis. Mas tal preservação anda ao lado da inexorável lei de que é o mais forte e o melhor que deve triunfar e que eles têm o direito de perdurar. Quem deseja viver precisa lutar. Aquele que não deseja lutar neste mundo, onde a luta permanente é a lei da vida, não tem o direito de existir”[42]

A seleção natural como a base do racismo não foi usada só por Hitler. Geisler e Turek nos lembram do julgamento de Scopes, em 1925:

“O livro de biologia do curso colegial que ocasionou o julgamento falava de cinco raças de homens e concluiu que os ‘caucasianos’ eram ‘o tipo mais elevado de todos’. Obviamente isso contradiz diretamente o ensinamento bíblico (Gn 1.27; At 17.26,29; Gl 3.28). Também contradiz o que é afirmado pela declaração de independência dos Estados Unidos (‘Todos os homens foram criados iguais’)”[43]

O livro em questão, que se baseava na “moral” darwinista, dizia o seguinte:

"As raças do homem. Atualmente existem sobre a Terra cinco raças ou variedades de homem, cada uma bem diferente da outra em instintos, costumes sociais e, até certo ponto, em estrutura. Existe o tipo etíope ou negro, originário da África; a raça malaia ou marrom, das ilhas do Pacífico; o índio americano; os mongóis ou raça amarela, incluindo os nativos da China, Japão e esquimós. Finalmente, o tipo mais elevado de todos, os caucasianos, representados pelos habitantes brancos e civilizados da Europa e Estados Unidos"[44]

O darwinismo está diretamente relacionado com o racismo desde o seu autor. Foi o próprio Charles Darwin quem usou a seleção natural para sustentar a tese de que as raças humanas “civilizadas” (superiores) devem exterminar as raças humanas “selvagens” em todo o mundo, e ainda impedir que essas “raças inferiores” se casassem com as “superiores”:

“Em algum período futuro, não muito distante se medido em séculos, as raças civilizadas do homem vão certamente exterminar e substituir as raças selvagens em todo o mundo. Ao mesmo tempo, os macacos antropomorfos... serão sem dúvida exterminados. A distância entre o homem e seus parceiros inferiores será maior, pois mediará entre o homem num estado ainda mais civilizado, esperamos, do que o caucasiano, e algum macaco tão baixo quanto o babuíno, em vez de, como agora, entre o negro ou o australiano e o gorila (...) Devemos, portanto, suportar o efeito, indubitavelmente mau, do fato de que os fracos sobrevivem e propagam o próprio gênero, mas pelo menos se deveria deter a sua ação constante, impedindo os membros mais débeis e inferiores de se casarem livremente como os sadios. Este impedimento poderia ser indefinidamente incrementado pela possibilidade de os doentes do corpo e do cérebro evitarem o matrimônio, embora isto seja mais uma esperança do que uma certeza”[45]

No mesmo livro, Darwin também diz:

“Olhando o mundo numa data não muito distante, que incontável número de raças inferiores terá sido eliminado pelas raças civilizadas mais altas!”[46]

Darwin não apenas disse que o homem caucasiano é superior ao negro e ao australiano, como também disse que os caucasianos certamente devem exterminar estas raças inferiores em todas as partes do mundo, para substituí-las. Se isso não é o mais alto grau de racismo, então eu sinceramente não sei o que pode ser. A jovem que chamou o goleiro Aranha do Santos de “macaco” é fichinha comparada a isso[47].

Mas o mais importante não é se Darwin pessoalmente era racista, mas sim que o darwinismo em si conduz ao racismo. Darwin não estava expressando a sua opinião pessoal sobre as raças, ele estava simplesmente mostrando a conclusão lógica da seleção natural, i.e, da sua própria teoria. A seleção natural, ao invés de nos ajudar a encontrar o senso objetivo de moralidade que precisamos, caminha no sentido contrário, servindo de base para o racismo. Assim, é óbvio que a seleção natural não pode ser a explicação para a moralidade objetiva do mundo, como Dawkins pensa.

Há um senso moral que nos diz que o racismo é errado, mas a seleção natural diz o contrário. É lógico, portanto, que a seleção natural não pode ser a explicação para o nosso senso moral que diz que o racismo é errado. Dawkins nem tenta lançar uma objeção a isso em seu livro, pois estaria tentando refutar nada a menos que Charles Darwin, seu mentor, seu ídolo, seu deus, citado centenas de vezes em The God Delusion, e ainda por cima o autor da teoria. Com que moral ou argumentos Dawkins poderia ter para refutar o que o próprio autor da teoria evolucionista disse sobre a sua própria teoria? Ele não pode, e, de fato, infelizmente não pôde.

E o pior de tudo é que Darwin não para por aí. Ele continua seguindo à risca a lógica da seleção natural e diz que nós não deveríamos ajudar os aleijados, os deficientes mentais, os pobres e os doentes:

“Entre os selvagens, os fracos de corpo ou mente são logo eliminados; e os sobreviventes geralmente exibem um vigoroso estado de saúde. Nós, civilizados, por nosso lado, fazemos o melhor que podemos para deter o processo de eliminação: construímos asilos para os imbecis, os aleijados e os doentes; instituímos leis para proteger os pobres; e nossos médicos empenham o máximo da sua habilidade para salvar a vida de cada um até o último momento... Assim os membros fracos da sociedade civilizada propagam a sua espécie. Ninguém que tenha observado a criação de animais domésticos porá em dúvida que isso deve ser altamente prejudicial à raça humana. É surpreendente ver o quão rapidamente a falta de cuidados, ou os cuidados erroneamente conduzidos, levam à degenerescência de uma raça doméstica; mas, exceto no caso do próprio ser humano, ninguém jamais foi ignorante ao ponto de permitir que seus piores animais se reproduzissem[48]

Seguindo a lógica da seleção natural, nós deveríamos seguir o conselho de Darwin e ir em frente: eliminar da nossa sociedade os deficientes, os pobres, os aleijados e os doentes. Ele explicitamente critica o ato de se criar leis para proteger os pobres e de os médicos se empenharem em curar os doentes. Para Darwin, a seleção natural é clara: eliminem todos eles, os fracos. Deixe-os morrer. Nossos atos de bondade estão apenas atrasando a evolução da espécie, são uma pedra no sapato, um empecilho, algo “altamente prejudicial à raça humana”, e nós nem deveríamos deixá-los reproduzir.

Agora imagine um país onde este discurso de Darwin fosse colocado em prática, de acordo com a seleção natural que Dawkins tanto exalta como a base da moralidade humana. Imagine um país onde você, ou sua mãe, esposa, filhos ou amigos próximos ficassem doentes, e ao invés de encontrarem ajuda no hospital são exterminados. Imagine um país onde os deficientes físicos e mentais são abandonados, onde os pobres são deixados para morrer de fome, onde não há asilos para os mais velhos, onde todos os “fracos” são eliminados e impedidos de se reproduzir. Não estamos inventando nada que Darwin não tenha dito explicitamente.

Eu não sei se você pensou em um país específico, mas historicamente há um só lugar onde uma pessoa tentou colocar isso em prática. Este país era a Alemanha nazista e essa pessoa era Adolf Hitler. Ele considerava que as raças “inferiores” (judeus, ciganos, homossexuais, negros e por aí vai) deveriam ser exterminadas, e se empenhou muito nisso. Ele empregou todos os seus esforços também em combater as pessoas com deficiência mental, tratando-as como lixo, proibindo que se reproduzissem. Seus soldados torturavam os “fracos” sem dó e nem piedade, e faziam experimentos com eles para ver até onde o ser humano era capaz de suportar a dor. Em Auschwitz o discurso de Darwin e a moralidade proveniente da seleção natural foram colocados em prática.

Você, se for um ser humano com um mínimo de dignidade, deve estar repudiando esta ideologia, que por pouco não foi colocada em prática em escala global, se os nazistas tivessem vencido a guerra. Mas essa repugnância que você sente certamente não provém da seleção natural, pois a seleção natural darwinista é pura e simplesmente isso. Se a seleção natural de Darwin é isso, e isso é algo que você repudia com toda a força, então é óbvio que o seu senso de moralidade não está baseado nisso, i.e, na seleção natural. Logo, teríamos que buscar uma outra fonte para a moralidade, coisa que Dawkins não faz, pois teria que apelar à Causa primeira, ao Deus que ele tanto detesta.

Se a seleção natural fosse a base da nossa moralidade, então Olavo de Carvalho estaria certo em seu deboche sobre a declaração anterior de Darwin, onde ele diz que as raças humanas mais próximas do gorila tinham que ser exterminadas:

“Imaginem, durante as eleições americanas, a campanha de John McCain proclamar que Barack Hussein Obama estava mais próximo do gorila do que o candidato republicano!”[49]

Por que imaginar um cenário destes é tão absurdo? Porque no mundo em que vivemos a moralidade não provém da seleção natural, mas de outra fonte. Aquilo seria somente o que esperaríamos encontrar num mundo onde toda a moralidade vem da seleção natural. A sua reação imediata de riso é somente o que esperaríamos de um mundo onde a seleção natural não influencia em nosso senso de moralidade.

Se você ainda quer mais, acompanhe comigo o que Dawkins escreve em seu livro sobre a moralidade proveniente da seleção natural:

"’Trair sempre’ é estável porque, se todo mundo fizer isso, um indivíduo isolado que seja honesto não vai se dar bem. Mas existe outra estratégia que também é estável (‘estável’ quer dizer que, uma vez que ela supere determinada frequência numa população, nenhuma alternativa se sai melhor). É a estratégia ‘Comece sendo legal, e dê aos outros o benefício da dúvida. A seguir pague as boas ações com boas ações, mas vingue-se das más ações’"

É isso mesmo o que você leu. A “moralidade” dawkiniana[50] baseada na seleção natural resume-se a trair sempre e a pagar o mal com o mal. Que belo conjunto de ensinos morais! Mas há dois problemas aqui. O primeiro é que, na contramão da seleção natural, sabemos de alguma forma que “trair sempre” não é moralmente aceitável – é repugnante. O segundo é que também sabemos que a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena. De alguma forma, nossa consciência moral nos diz que trair e pagar mal com mal é errado, ainda que a seleção natural nos leve ao caminho inverso. Desta forma, a seleção natural não pode ser a explicação moral para o fato de que trair sempre e se vingar sejam considerados moralmente errados.

Outro problema para os advogados da seleção natural como a base da moralidade é que, como já vimos, os animais são afetados por ela tanto quanto os seres humanos. Pelo menos na visão darwinista, a seleção natural foi o que nos levou a estar aqui hoje, assim como os animais. É o mesmo mecanismo que atuou em todas as espécies. Mas no reino animal é comum vermos animais matando outros da própria espécie, como o leão[51] e o macaco[52], por exemplo. São mais de quarenta diferentes espécies de animais que praticam o infanticídio, que é quando os animais adultos matam os recém-nascidos da própria espécie.

O site Hype Science elenca alguns animais que adotam esta prática, tais como[53]:

Suricatos: as fêmeas matam a prole de outras mamães do mesmo bando;

Leões: machos de fora do bando matam bebês leões para aumentar as chances de terem suas próprias proles;

Golfinhos: infanticídio entre cetáceos é raro, mas já foi observado algumas vezes em golfinhos-nariz-de-garrafa (o golfinho comum);

Pombo-das-rochas: não praticam infanticídio durante períodos de escassez de alimentos, mas pássaros adultos já foram vistos matando filhotes de ninhos vizinhos;

Langures: macacos considerados sagrados pelos hindus, eles foram um dos primeiros grupos de primata em que foi observada a prática do infanticídio;

Chimpanzés: o fenômeno é comumente observado entre a espécie. Já foram vistos infanticídios praticados por machos e fêmeas, dentro e fora de seus grupos.

O artigo também diz:

“A proteção paternal é crucial para a sobrevivência de muitas espécies. Porém, quando chegam novos machos na área, tudo muda. Se esse novo macho consegue vencer o macho anterior, matando ou afugentando-o, ele assume a liderança e os filhotes correm perigo. Motivo: esse novo macho quer ter seus próprios filhotes. Na sociedade dos leões, por exemplo, o infanticídio faz com que as leoas se tornem férteis novamente, o que aumenta as chances do novo macho de ter uma prole própria. E, caso ele não mate os bebês, o novo macho corre o perigo de, mais tarde, sofrer um ‘golpe de estado’ pela liderança do bando”[54]

Uma matéria na Superinteressante de março de 2011, com o título de: “Não somos a única espécie que mata sem ser para comer”, afirma:

“Você acha que uma onça só ataca outro bicho se for para comê-lo? Pode esquecer essa ideia. Alguns animais trucidam suas vítimas por razões que nada têm a ver com fome, e muitas vezes fazem isso com assustadora frequência. Hienas, lobos e leões, por exemplo: matam regularmente competidores que ousem invadir seu território. O caso mais chocante, porém, talvez seja o dos chimpanzés - justamente nossos parentes mais próximos. ‘Além de matar uns aos outros dentro de um mesmo grupo, eles matam integrantes de grupos vizinhos’, diz John Mitani, antropólogo da Universidade de Michigan, nos EUA. Tudo indica, segundo Mitani, que os chimpanzés fazem isso para expandir seus domínios e garantir mais recursos naturais. Na última década, o grupo estudado pelo antropólogo em Uganda matou 21 membros de outro bando”[55]

O mais interessante é que os animais não apenas praticam o infanticídio, mas ainda são beneficiados com isso, como mostra uma matéria publicada pela BBC Brasil, intitulada: “Entenda por que matar filhotes beneficia espécies animais”, onde diz:

“Segundo estudos, o infanticídio pode trazer benefícios às espécies animais que o cometem, como maiores oportunidades para que o infanticida se reproduza e mesmo alimentação (quando o infanticida come o filhote morto). Matar um filhote é também uma maneira de evitar que seus pais tenham que investir energia para cuidar da cria (...) Em sociedades de leões, por exemplo, matar filhotes faz com que suas mães voltem a ficar férteis mais rápido, aumentando a chance de que os novos machos se reproduzam. E se não matam filhotes alheios, correm o risco de que os filhotes do antigo líder cresçam e deem o seu próprio golpe”[56]

A matéria prossegue dizendo que “as fêmeas dominantes dos suricatos matam filhotes de subordinados e os próprios subordinados, se tiverem cria própria, podem também matar o filhote de uma fêmea dominante”[57]. A questão primordial aqui é que, para os ateus, foi a seleção natural que propiciou as condições para que o infanticídio ocorresse entre os animais. Ninguém afirma que os leões são imorais por matarem os filhotes da mesma espécie, ou que o chimpanzé está objetivamente errado em praticar infanticídio em seu próprio grupo. Em outras palavras, a seleção natural os levou a isso, e não fez nada para que o mesmo fosse considerado moralmente mau. É apenas uma prática “natural”, que até conta com os seus “benefícios”.

Mas quando se trata dos humanos a coisa muda completamente, pois ninguém é tão insano ao ponto de afirmar que o infanticídio é normal porque “matar um filhote é também uma maneira de evitar que seus pais tenham que investir energia para cuidar da cria”. Alguém que agisse assim com um bebê humano seria considerado um monstro da pior crueldade, e com razão. Mas se o processo darwinista de seleção natural não faz com que o infanticídio seja imoral entre os animais, por que com os humanos seria totalmente diferente? Por que quando a aranha-caranguejeira mata seu macho após o acasalamento não é moralmente errado, mas se uma mulher faz a mesma coisa com um homem é?

Isso implica que o nosso senso de moralidade acerca do mal do infanticídio e do assassinato não provém da própria seleção natural, mas de outra fonte. A seleção natural pode até ser a razão pela qual seres humanos são infanticidas (assim como os animais), mas não pode ser a razão pela qual o infanticídio é objetivamente mau. Por que quando um animal mata um filhote para evitar que seus pais tenham que investir energia para cuidar da cria não é algo objetivamente mau, mas quando um ser humano faz a mesma coisa é objetivamente mau? Certamente não pode ser pela mesma razão (seleção natural) que faz com que isso seja normal entre os animais.

O ateu não consegue responder a isto satisfatoriamente, tanto quanto não é capaz de pensar em um argumento pelo qual a cópula forçada é algo moralmente errado para os seres humanos, mas não para os tubarões. A saída mais fácil seria dizer que não há mesmo nada de errado no infanticídio ou no estupro, mas isso nos levaria de volta ao tópico anterior, onde demonstramos que a moralidade objetiva existe, e que práticas como o infanticídio e o estupro são reais e objetivamente erradas.

Quantas vezes não vemos uma mãe abandonando seu bebê recém-nascido em um lixo[58], ou que simplesmente o mata para ter vantagens próprias, como não ter que arcar com os custos do cuidado do bebê, ou com a energia necessária para isso, ou n razões que podem tê-las levado a agir desta maneira. Mesmo com estas vantagens pessoais, não deixamos de considerar as mães que jogam seus bebês no lixo como outra coisa senão monstros. Há um contraste gritante entre o senso de moralidade que deveríamos ter caso a seleção natural fosse a única regra ou padrão de moral, e a moralidade que de fato temos. E mesmo que a mãe não obtivesse vantagem nenhuma com isso, Craig diz:

“Certas ações, como o incesto e o estupro, podem não ser vantajosas em termos biológicos e sociais e, por isso, no curso da história da humanidade vieram a se tornar um tabu. Mas isso não faz absolutamente nada para mostrar que o estupro ou o incesto sejam comportamentos realmente errados. Tais coisas acontecem o tempo todo no reino animal. O estuprador que violasse a moralidade do bando não estaria fazendo nada mais grave do que agindo de forma deselegante, como alguém que arrota alto quando está à mesa. Se não tivermos alguém que faça as leis morais, então não existem deveres morais objetivos que devemos obedecer”[59]

Além disso, mesmo se a seleção natural conseguisse satisfatoriamente explicar todo o nosso senso objetivo de moralidade, ela não faz absolutamente nada para mostrar que a pessoa deve de fato agir moralmente. Geisler e Turek abordam isso, dizendo:

“Os darwinistas não podem explicar por que qualquer pessoa deveria obedecer a qualquer ‘sentimento moral’ biologicamente derivado. Por que as pessoas não deveriam matar, estuprar e roubar para obter aquilo que desejam se não existe nada além deste mundo? Por que o poderoso deveria ‘cooperar’ com o mais fraco quando o poderoso pode viver mais explorando o mais fraco? Afinal de contas, a história está repleta de criminosos e ditadores que estenderam sua própria sobrevivência exatamente porque desobedeceram a todos os ‘sentimentos morais’ no processo de repreender e eliminar seus oponentes”

Este parecer também foi manifesto por Craig em seu debate com o neo-ateu Sam Harris:

“No ateísmo, não vejo razão alguma para pensar que tenhamos qualquer dever moral. As obrigações morais ou proibições surgem em resposta a imperativos de uma autoridade competente. Por exemplo, se um policial te disser que se detenha, então, devido a sua autoridade, a quem ele é, você está legalmente obrigado a se deter. Mas se uma pessoa qualquer te diz para se deter, você não está legalmente obrigado a deter-se. Na ausência de Deus, que autoridade há para ditar mandamentos morais ou proibições? Não há nenhuma no ateísmo”[60]

É uma coisa diferente dizer que a seleção natural imprimiu as “morais corporativas” com finalidade à sobrevivência da espécie[61] (entre elas o senso de não assassinar, o que diminuiria a espécie), de dizer que a pessoa de fato não deve assassinar, por ser moralmente errado. Em outras palavras, não haveria mal moral no assassinato nem obrigação moral de não assassinar, se a seleção natural é tudo o que imprimiu nossos sentimentos morais.

O assassinato seria “mal” apenas no sentido de que a espécie teria um indivíduo a menos, e não no ato em si. É como se toda a sua motivação para não matar a pessoa que você mais odeia fosse que o mundo (de sete bilhões de pessoas) teria uma pessoa a menos, e que isso seria “mal” para a espécie. Não é preciso nem dizer que esta espécie de “mal” não protegeria ninguém de matar, e que esta não seria uma razão suficiente para coibir a violência no mundo.

Em um país como a China, com seus 1,3 bilhões de habitantes, onde o número de pessoas é tão grande que chegou a ser altamente problemático e onde o governo teve que implantar medidas políticas de controle populacional, poderíamos até dizer que não haveria mal nenhum em matar, uma vez que o assassinato seria mal somente no sentido de que a população tem que crescer, mas a da China precisa é diminuir!  Por que então os chineses não resolvem o enorme problema do excesso populacional da forma mais “simples”, exterminando de uma só vez a metade da população?

Ele não faz isso porque sabe que isso seria moralmente errado, e aqui não poderíamos apelar para a seleção natural, pois o motivo que a seleção natural dá para não matar é exatamente o mesmo motivo pelo qual precisaríamos matar nesta situação específica! Desta forma, o governo chinês não resolve da forma “fácil”, não por causa da seleção natural e sua explicação rasa da perpetuação da espécie, mas por uma outra causa moral que não pode ser explicada pela seleção natural. Esta causa é a lei moral que está implantada no coração de cada um de nós, e que nos foi dada por Deus.

Mas de todas as explicações darwinistas para a moralidade, a pior é certamente a que tenta explicar o altruísmo. Quem assistiu a “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, deve se lembrar da cena em que o Coringa coloca duas bombas em dois navios, dando o detonador de um navio para o outro (e vice-versa). As pessoas de cada navio tinham 15 minutos para decidir se explodiriam o outro, e quem explodisse primeiro ficava vivo.

Na verdade, todo o teste do Coringa era para provar que as pessoas eram más e egoístas, e que não restava mais nem um pingo de bondade ou misericórdia no mundo. Ele estava certo de que um explodiria o outro. Detalhe: um dos navios era constituído somente de detentos. No fim das contas, nenhum navio decidiu explodir o outro, mesmo sabendo que poderiam morrer por causa disso. Ainda havia algo de altruísta nas pessoas, algo que as fizessem poupar a vida do próximo, mesmo colocando em risco a sua. Ainda havia algo que fizesse valer a pena se sacrificar pelo próximo.

Mas por que as pessoas são altruístas? Os ateus como Dawkins vão responder que todo esse altruísmo não passa de características herdadas pela seleção natural. Mas o mecanismo de seleção natural gira em torno de favorecer o indivíduo mais forte, o mais esperto, mais inteligente e mais egoísta, no sentido de preservação da própria vida e da sua descendência. Paradoxalmente, no entanto, a natureza cria heróis altruístas que estão prontos a se sacrificar pelos mais fracos, e estes são reconhecidos como moralmente superiores, ao invés de ser o contrário.

No sentido darwinista da luta pela sobrevivência, o altruísmo não apenas não faz sentido, como também teria de tudo para ser reconhecido como uma característica desprezível, dos “fracos”. A realidade, no entanto, mostra exatamente o inverso deste quadro. Indivíduos altruístas são os mais reconhecidos e respeitados, enquanto os menos altruístas, que deveriam ser os mais fortes (que mais lutam pela própria sobrevivência, no sentido darwinista do termo), são os mais desprezados pela sociedade.

Este senso nós temos pela lei moral que nos diz que o altruísmo é certo e o egoísmo é errado, mas dificilmente teríamos caso esta lei moral não existisse. Se a lei moral não existisse, a seleção natural por si mesma não colocaria em nossa mente que o altruísmo é bom enquanto o egoísmo é mau, porque a própria seleção natural favoreceria os mais egoístas. Ainda que alguns façam malabarismos imaginativos para supor que o altruísmo tenha sido passado geneticamente de geração em geração, isso ainda não responde a questão do por que deveríamos considerá-lo bom, em contraste com o inverso disso (egoísmo), ou mesmo com a neutralidade.

Se a seleção natural é a responsável pelo altruísmo tanto quanto pelo egoísmo, por que consideramos o altruísmo tão distante em termos morais em relação ao egoísmo, ainda mais quando são os egoístas e não os altruístas que são mais favorecidos pela lei natural de sobrevivência? Na visão ateísta, o egoísmo e o altruísmo não passam de um produto da mesma causa – a seleção natural – que por sua vez não possui inteligência ou personalidade para definir o que é bom ou mal. Seria a própria seleção natural que teria perpetuado o altruísmo e o egoísmo, mesmo se tratando de comportamentos contraditórios. Isso sim que é realmente contraditório!

Em seu primeiro livro publicado, “O Gene Egoísta” (1976), Dawkins tenta resolver este problema alegando que o egoísmo e o altruísmo são meras metáforas, resultados de processos evolutivos que no final ocorrem apenas para permitir a sobrevivência. Ele reduz ridiculamente o valor intrínseco do altruísmo e o mal moral do egoísmo para dois “produtos” da mesma coisa que só servem para um mesmo fim comum, o da sobrevivência da espécie. Isso obviamente retira todo o louvor que há no altruísmo e também toda a mácula que há no egoísmo. No lugar disso, essa teoria nos leva a abraçar as duas coisas como sendo úteis para a perpetuação da espécie, que é o que realmente importa.

Egoísmo e altruísmo, nesta perspectiva, não seriam dois valores morais opostos, mas somente dois lados da mesma moeda, que valem a mesma coisa e que nos levam ao mesmo lugar. Se o egoísmo é “útil” e se ele existe pela mesma razão e com a mesma finalidade do altruísmo, é de se espantar que consideremos tão distante o comportamento daquele que salva uma criança que está morrendo afogada, em comparação com o marmanjo que vê a criança morrendo mas prefere não arriscar a própria vida, e olha a criança morrendo afogada, na beira da praia. Na perspectiva de Dawkins, o comportamento daquele que só ficou olhando a pobre criança morrendo está sendo útil; afinal, ele está preservando sua própria sobrevivência, não é mesmo?

Lamentavelmente, esta é uma visão que Dawkins não parece ter mudado das últimas décadas para cá. The God Delusion está repleto de afirmações da mesma natureza, onde ele tenta sutilmente igualar o altruísmo ao egoísmo, como se todo comportamento altruísta fosse, na verdade, fruto de um egoísmo interiorizado, i.e, o altruísmo com a finalidade de benefício próprio. É triste ter que passar pelas páginas do livro e ler declarações como estas:

“A doação altruísta pode ser uma propaganda de dominância ou superioridade. Os antropólogos conhecem esse fenômeno como Efeito Potlatch, o nome do costume pelo qual chefes rivais de tribos do noroeste do Pacífico competem entre si em duelos de festas de uma generosidade destrutiva”

“O outro tipo principal de altruísmo para o qual há uma razão darwiniana bem explicada é o altruísmo recíproco (‘coce as minhas costas que eu coço as suas’). O princípio é a base de todo o comércio e dos escambos também para os seres humanos. O caçador precisa de uma lança e o ferreiro quer carne”

“Para usar o tipo de linguagem antropomórfica que Zahavi adora, o pássaro dominante está dizendo o equivalente a: ‘Olhe como sou superior em relação a você, posso até lhe dar comida’. Ou: ‘Olhe como sou superior, posso até ficar vulnerável de propósito às águias parando num ramo alto, agindo como sentinela para alertar o resto do grupo que está comendo no chão’"

“Os indivíduos compram o sucesso, por exemplo na atração de parceiros, através de demonstrações caras de superioridade, incluindo a generosidade ostentatória e as situações de perigo cujo objetivo é ser vistas pelo público”

Você percebeu?

Toda a conceituação de Dawkins em torno do altruísmo não passa de uma tentativa desprezível de se igual o altruísmo ao egoísmo, e todo ato altruísta, para ele, é na verdade uma ‘demonstração de dominância e superioridade’, uma troca interesseira, uma ‘atitude ostentatória’, um ato motivado pelo orgulho, uma ‘generosidade destrutiva’. Não seria de se espantar se os seguidores de Dawkins, que o idolatram, agissem desta forma e desprezassem o verdadeiro altruísmo.

O ponto principal aqui é que Dawkins não diz apenas que existem pessoas más que fazem o bem somente para aparecer ou para demonstrar superioridade. Isso até Jesus Cristo disse que existia, quando condenou a ação dos hipócritas em dar esmolas “anunciando com trombetas”, para serem vistos e honrados pelo povo que estava em volta (Mt.6:2). Mas Dawkins vai muito além disso, porque ele quer passar a ideia de que não existe o verdadeiro altruísmo, porque todo aparente altruísmo tem algo de egoísta e de interesseiro por trás.

Jesus condenou o falso altruísmo dos hipócritas, mas depois prosseguiu dizendo que era para nós realizarmos o verdadeiro altruísmo, dando esmolas sem que ninguém estivesse por perto para aplaudir ou honrar. Dawkins, por outro lado, condena o altruísmo em si, pois para ele todo altruísmo é uma forma de egoísmo. Jesus ensinou os dois lados do altruísmo; Dawkins enxerga somente um lado da moeda, porque não quer enxergar o outro, que é um enorme problema para os darwinistas ateus.

A realidade, no entanto, nos mostra coisas muito distintas. Há falsos atos de altruísmo, é verdade, mas também há muita gente que ajuda os outros sem esperar receber nada em troca. Voltando ao exemplo do homem que decidiu salvar a criança que estava morrendo afogada, ele não receberia nada em troca caso ninguém estivesse vendo, nem estaria emocionalmente ligado à criança por amizade ou parentesco (ele nunca a tinha visto e nunca mais a viu), mas mesmo assim decidiu arriscar a própria vida por ela. O darwinismo “moral” não consegue explicar por que alguém colocaria a sua própria vida em risco sem receber absolutamente nada em troca. O Cristianismo consegue, por uma palavra chamada amor, que na visão darwinista não passa de um conceito abstrato sem significância real.

Se o Cristianismo é verdadeiro, então Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo.3:16). Este é o maior, o mais belo e mais extraordinário ato altruísta da história: o justo morrendo pelos injustos (1Pe.3:18); um morreu por todos (2Co.5:14). E é por causa deste tão grande amor que nos amou primeiro que nós devemos olhar para o próximo e estender o braço em seu favor, ainda que não recebamos nada em troca por isso – o amor de Cristo nos constrange (2Co.5:14) e leva-nos a nos tornar pessoas melhores, fazendo o que Jesus faria se estivesse em nosso lugar.

Essa é a razão pela qual Dawkins tanto se opõe ao altruísmo ao tentar desfigurá-lo: o Cristianismo é a mais alta expressão de altruísmo. Dawkins não consegue concebê-lo, e ao invés de oferecer algo melhor prefere lutar contra o próprio princípio moral. Na realidade, se a seleção natural é a nossa única fonte de moralidade, então esta forma verdadeira de altruísmo é somente um “erro”, um desvio na curva, uma contramão na evolução. Darwin admitiu isso abertamente, como já vimos. Ele honestamente admitiu que, se a seleção natural é verdadeira, é incoerente e contraditório que façamos hospitais para curar os fracos, ou asilos para cuidar dos mais velhos. Dawkins ainda não chegou a este ponto de honestidade, mas eu penso que não falta muito.

C. S. Lewis, com sua genialidade que lhe era habitual, ainda capta um outro ponto importante sobre o altruísmo, que é a nossa escolha quando estamos diante de dois instintos:

“Suponhamos que você ouça o grito de socorro de um homem em perigo. Provavelmente sentirá dois desejos: o de prestar socorro (que se deve ao instinto gregário) e o de fugir do perigo (que se deve ao instinto de auto-preservação). Mas você encontrará dentro de si, além desses dois impulsos, um terceiro elemento, que lhe mandará seguir o impulso da ajuda e suprimir o impulso da fuga. Esse elemento, que põe na balança os dois instintos e decide qual deles deve ser seguido, não pode ser nenhum dos dois. Você poderia pensar também que a partitura musical, que lhe manda, num determinado momento, tocar tal nota no piano e não outra, é equivalente a uma das notas no teclado. A lei moral nos informa da melodia a ser tocada; nossos instintos são meras teclas”[62]

Ele ainda adianta que isso acontece embora o nosso desejo (instinto) de autopreservação seja mais forte do que o de ajudar:

“Provavelmente, seu desejo de ficar a salvo é maior do que o desejo de ajudar o homem que se afoga, mas a Lei Moral lhe manda ajudá-lo, apesar dos pesares. E, em geral, ela nos manda tomar o impulso correto e tentar torná-lo mais forte do que originalmente era não é mesmo? Ou seja, sentimos que temos o dever de estimular nosso instinto gregário, por exemplo, despertando a imaginação e estimulando a piedade, entre outras coisas, para termos força para agir corretamente na hora certa. É evidente, porém, que, no momento em que decidimos tornar mais forte um instinto, nossa ação não é instintiva. Aquilo que lhe diz: ‘Seu instinto está adormecido, desperte-o!’, não pode ser o próprio instinto. O que lhe manda tocar tal nota no piano não pode ser a própria nota”[63]

Mas o que faria C. S. Lewis se levantar do caixão é a explicação horrível que Dawkins oferece para o “impulso” de adotar uma criança, que ele reconhece que à primeira vista se trata de algo que vai à contramão da seleção natural. Ele – pasme – chama todos os nossos atos de bondade como erros da seleção natural!

“A melhor maneira de a seleção natural imprimir os dois tipos de desejo nos tempos ancestrais foi instalando regras gerais no cérebro. Essas regras ainda nos influenciam hoje em dia, mesmo quando as circunstâncias as tornam inadequadas a suas funções originais (...) As regras gerais, por natureza, às vezes dão errado (..) Não é possível que nossos impulsos de Bom Samaritano sejam erros, análogos ao equívoco dos instintos paternos de um rouxinol-dos-caniços que se esforça para alimentar um jovem cuco? Uma analogia ainda mais próxima é o impulso humano de adotar uma criança. Devo me apressar a dizer que ‘erro’ refere-se apenas ao sentido estritamente darwiniano. Não carrega nenhum tom pejorativo

É isso mesmo o que você leu. A nossa moralidade é um erro da seleção natural. Leia de novo: nossos impulsos de bom samaritano são erros, equívocos, no sentido darwinista. E é desta fonte maravilhosa que ele e os demais ateus tiram a nossa moralidade: de um erro. Não surpreenderia nada se um assassino sanguinário ou um estuprador compulsivo se justificasse dizendo que ele está apenas fazendo o certo de acordo com a forma “correta” da seleção natural, e que somos nós que estamos errados em nossos “instintos de bom samaritano”, que Dawkins considera equívocos no processo.

Então, paradoxalmente, a moral ateísta é baseada em uma fonte que é seguida à risca pelos criminosos, mas por causa de um erro existem essas pessoas altruístas que vemos por aí! A coisa piora ainda mais para Dawkins quando ele tenta explicar esta grosseria escrita em seu livro. Já vimos que ele disse que este erro refere-se apenas ao sentido darwinista. Isso não serve de justificação para um ateu, pois o ateu não crê em outra coisa. O ateu não tem outra fonte de moralidade senão a seleção natural, então dizer que este erro refere-se “somente” ao darwinismo significa dizer que se refere a tudo.

Tentando concertar as coisas, ele diz um pouco adiante:

“Não podemos fazer nada para deixar de sentir pena quando vemos um desafortunado chorando (que não seja nosso parente e não seja capaz de retribuir), assim como não podemos fazer nada para deixar de sentir desejo por um integrante do sexo oposto (que pode ser estéril ou incapaz de se reproduzir). As duas situações são ‘erros’, equívocos darwinianos: equívocos abençoados e maravilhosos

Mas espere um pouco. Para tudo. Como foi que Dawkins descobriu que este “erro” é... maravilhoso? Se a seleção natural é a única fonte de moralidade, e o altruísmo é um erro neste sentido, então como pode ser maravilhoso? Como foi que Dawkins chegou à conclusão de que este erro foi um erro bom, e não um erro ruim ou neutro? Aqui ele está apelando para uma fonte à parte da própria seleção natural. Sem se dar conta, ele acaba de confirmar a existência de uma lei moral pela qual pode julgar se o erro da seleção natural foi “maravilhoso” ou “tenebroso”.

A seleção natural em si só diz que isto é um erro. A conclusão de que este erro é “maravilhoso” não provém da própria seleção natural, mas de alguma outra base em que Dawkins se apoia mesmo sem saber, e na qual confessa ainda que sem intenção. Se Dawkins fosse coerente com a sua crença de que a seleção natural é a única fonte de moralidade, ele somente teria dito que o altruísmo é um erro, mas não teria condições de fazer juízo de valor a este respeito. Se este erro da seleção natural foi um erro bom ou não, é de uma competência externa à própria seleção natural, e neste momento estaríamos apelando a uma lei moral à parte dos mecanismos darwinistas. Ou seja: a Deus. Dawkins é somente um crente que não percebe que é crente.

Craig ainda observa:

“É fantasticamente improvável que o processo evolutivo cego fosse capaz de cuspir precisamente o tipo de criaturas que correspondessem ao domínio abstratamente existente dos valores morais. Isso parece ser uma coincidência totalmente não crível, quando se pensa nela. E quase como se o domínio moral soubesse que estávamos chegando. E muito mais plausível, como Sorley defendia, pensar que o domínio moral e o domínio natural estão sob a autoridade de um Deus que nos deu tanto as leis da natureza quanto a lei moral, do que pensar que esses dois domínios independentes apenas se entrosaram por acaso”[64]

A conclusão que nós chegamos é que essa lei moral objetiva, de onde nós e Richard Dawkins podemos concluir que os “erros” da seleção natural são “bons”, não pode ser a própria seleção natural, que em si mesma apenas diz que o altruísmo é um erro – não nos diz se este erro é bom ou mal. A conclusão de que este “erro” é “maravilhoso”, i.e, a fonte pela qual podemos fazer juízo de valor a respeito da própria seleção natural, é a lei moral que só pode ter vindo de Algo à parte dos mecanismos evolucionistas, sobre quem Lewis conclui que “é mais parecido com uma mente do que com qualquer outra coisa conhecida – porque, afinal de contas, a única outra coisa que conhecemos é a matéria, e ninguém jamais viu um pedaço de matéria dar instruções a alguém[65].

O que as evidências em conjunto indicam é que Martin Luther King estava certo quando disse:

“O nosso mundo depende de uma fundação moral. Deus o fez assim. Deus fez o Universo para ser baseado em uma lei moral. Se o homem desobedecê-la, está se revoltando contra Deus”


Corrigindo equívocos finais

Antes de concluirmos este capítulo do livro, convém derrubarmos duas distorções muito comuns do argumento moral. O primeiro é o dilema de Eutífron, usado por Bertrand Russell em seu livreto “Por que não sou cristão”, como uma refutação ao argumento moral. Este dilema basicamente consiste na falácia da falsa dicotomia[66], onde se apela a duas únicas possibilidades: (a) algo é bom porque Deus assim deseja (e neste caso o “bom” é algo arbitrário); ou (b) Deus deseja aquilo por ser bom (e neste caso o valor moral independe de Deus).

Não é necessário se ocupar muito neste “dilema”, porque ele possui uma explicação simples, que desbanca a falsa dicotomia. Quem a apresenta é o filósofo cristão William Lane Craig, que escreveu:

“Não precisamos refutar as duas alternativas do dilema de Eutífron, pois o dilema que nos e apresentado é falso: existe uma terceira alternativa, a saber, Deus deseja algo porque Deus é bom. O que quero dizer com isso? Quero dizer que a própria natureza de Deus é o padrão do que é bom, e seus mandamentos para nós são expressão de sua natureza (...) Assim, o dilema de Eutífron nos apresenta uma falsa alternativa, e não devemos nos deixar enganar por ela. O que é moralmente bom ou mau é definido pela natureza de Deus, e o que é moralmente certo ou errado é determinado pela vontade de Deus. Deus deseja algo porque Ele é bom, e algo é certo porque Deus o deseja”[67]

A segunda distorção muito frequente do argumento da moralidade está presente em The God Delusion e nos ajuda a entender por que o filósofo Alvin Plantinga disse que as “filosofadas” de Richard Dawkins seriam reprovadas numa aula de filosofia para estudantes do primeiro período. Isso porque Dawkins deturpou totalmente e grosseiramente o argumento da lei moral, como se este argumento dissesse que somente os cristãos são morais, ou que a crença em Deus seja necessária para a moralidade. Já refutamos este falso entendimento na introdução deste capítulo.

Lastimavelmente, Dawkins provou não ter nem sequer entendido o argumento que ele se propôs a refutar. As linhas de seu livro refletem um desconhecimento gritante de causa, e nos fazem duvidar completamente que ele tenha lido um único parágrafo sobre o argumento moral em fontes teístas, nem mesmo da obra mais clássica e famosa sobre o tema, o Cristianismo Puro e Simples, de C. S. Lewis.

Essa é a razão pela qual Dawkins não cita nenhum autor teísta nesta parte inteira do livro, não interage com nenhum deles, não faz uma única citação de qualquer livro apologético sobre este argumento e ainda faz um espantalho grotesco que não condiz em absolutamente nada daquilo que propomos através do argumento da moralidade. Ou seja: ele “refuta” o que não entende. Não é a toa que este capítulo de seu livro é um completo fracasso. Não é possível que alguém que saia à guerra sem conhecer nada do adversário seja capaz de vencê-lo.

O mínimo que se espera de alguém que se propõe a refutar um argumento é que primeiro entenda o que o argumento diz, algo que Dawkins não faz qualquer questão de averiguar. Para ver como ele confunde absurdamente o argumento moral, basta se deparar com citações como estas:

“Se você admite que continuaria sendo uma boa pessoa mesmo quando não estiver sob a vigilância divina, você destruiu fatalmente a alegação de que Deus é necessário para que sejamos bons”

“Hauser também especulou, de especial interesse para este livro, se as pessoas religiosas têm intuições morais diferentes das dos ateus. Se tiramos nossa moralidade da religião, certamente deveria haver diferença...”

Qualquer um que entenda um pouco do argumento moral e que depois leia The God Delusion ficará espantado, para não dizer aterrorizado, com os espantalhos que Dawkins faz do argumento. Ele acha que o argumento da moralidade consiste em dizer que a crença em Deus é necessária para a moralidade, quando nenhum teísta afirma isso. O que todos nós afirmamos pelo argumento moral é que a existência de Deus seria necessária para a moralidade, ainda que alguém não creia nele (da mesma forma que a Terra permanecerá esférica mesmo que alguém creia que ela é plana).

Desta forma, é lógico que aquilo que garante o nosso senso de moralidade não é a crença em Deus, ou uma religião, ou mesmo a Bíblia ou um líder espiritual, mas sim a lei moral que Deus implantou no coração de todos, até mesmo naqueles que decidiram não crer. É por isso que não devemos mesmo encontrar intuições morais diferentes nos religiosos em relação aos ateus, porque ambos possuem a mesma lei moral gravada em seus corações (Rm.2:15).

Assim, interessantemente, o argumento que Dawkins usa na tentativa de refutar o argumento moral acaba servindo para provar ainda mais o argumento moral, pois se a lei moral não fosse objetiva e universal deveríamos encontrar uma moral totalmente diferente entre grupos diferentes, o que o próprio Dawkins assinala que não ocorre. Ele entende tão terrivelmente mal o argumento que, ao invés de refutá-lo, ajuda a confirmá-lo! Se é este nível absurdo de ignorância e desconhecimento que encontramos no ateu mais famoso do mundo (que deveria teoricamente pelo menos entender um argumento que pretende refutar), você já pode imaginar o nível dos neo-ateus comuns, destes que pipocam na internet e que se auto-intitulam “sábios”.

A consequência deste péssimo entendimento de Dawkins acerca do argumento moral é o que o faz pensar que nós tiramos esta lei moral das Escrituras, e por isso parte com tudo pra cima da Bíblia, em ataques frenéticos que examinaremos no capítulo seguinte. A Bíblia, contudo, não é a própria lei moral. Ela é uma expressão da lei moral, mas não a lei moral em si. Se a Bíblia fosse a lei moral, então seria impossível que os povos que não tem (ou não tiveram) contato com as Escrituras tivessem alguma moralidade.

Mas Deus decidiu colocar a lei moral na consciência de cada indivíduo exatamente para que ninguém tivesse escusa para os seus maus atos, pois qualquer ser humano sabe que estes atos são maus, com ou sem a Escritura. A Bíblia, por sua vez, segue a lei moral, como um guia prático de vida que pode nos aperfeiçoar e nos tornar mais próximos deste padrão objetivo que somente conhecemos pela nossa consciência. Mais do que isso, a Bíblia é também o “livro de Deus”, onde ele decidiu deixar registrado o seu projeto inicial para o mundo, a história de como o homem destruiu este projeto e como Deus agiu para restaurá-lo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

(Trecho extraído do meu livro: "Deus é um Delírio?")


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[1] Levando em consideração que estou escrevendo este livro em 2014. Eu realmente espero que este número esteja errado nos anos seguintes, e que as pessoas olhem e pensem que foi um [grande] erro numérico.
[3] William Lane Craig, Em Guarda, p. 143.
[4] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
[5] ibid.
[6] Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu.
[7] Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu.
[8] ibid.
[9] Rirchard Dawkins, O Relojoeiro Cego.
[10] William Lane Craig, Em Guarda, p. 155.
[11] Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu.
[12] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
[13] Written on the Heart: The Case for Natural Law.Downers Grave, Ill.: InterVarsity Press, 1997, p.208-9;
[14] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
[15] ibid.
[16] Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu.
[17] “Às onze e vinte, o primeiro banco tinha sido roubado. Ao meio-dia a maioria das lojas do centro da cidade havia fechado as portas por causa dos saques. Algumas horas depois, taxistas incendiaram a garagem de um serviço de aluguel de limusines que concorria com eles por passageiros do aeroporto, um atirador assassinou um policial da província, baderneiros invadiram hotéis e restaurantes e um médico matou um ladrão em sua casa, no subúrbio. No fim do dia, seis bancos haviam sido assaltados, cem lojas haviam sido, saqueadas, doze incêndios haviam sido provocados, quilos e quilos de vidros de vitrines haviam sido quebrados e 3 milhões de dólares em prejuízos haviam sido registrados, até que as autoridades da cidade tiveram que chamar o Exército e, é claro, a polícia montada para restabelecer a ordem”.
[18] Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu.
[19] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
[20] ibid.
[21] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
[22] Isso foi sustentado explicitamente por Charles Darwin em seu livro “The Descent of Man”, onde disse: “A distância entre o homem e seus parceiros inferiores será maior, pois mediará entre o homem num estado ainda mais civilizado, esperamos, do que o caucasiano, e algum macaco tão baixo quanto o babuíno, em vez de, como agora, entre o negro ou o australiano e o gorila”.
[23] Como constava no livro de biologia do curso colegial que ocasionou o julgamento de Scopes, em 1925.
[25] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
[26] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
[27] ibid.
[28] ibid.
[29] É importante mencionar que esta parte do livro não diz respeito se a seleção natural existe ou não, nem tampouco se o darwinismo é verdadeiro ou falso, mas somente que a seleção natural não pode ser a explicação para o nosso senso objetivo de moralidade. Mesmo se o darwinismo for verdadeiro, ele no máximo poderia explicar a evolução biológica, mas não a moralidade humana, razão pela qual temos que apelar a uma outra fonte, que é a lei moral, tratada anteriormente.
[30] Apud Nancy Pearcey, Darwin's Dirty Secret, World, March 25, 2000.
[31] Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu.
[32] Citado por David Robertson em “Cartas para Dawkins”, Carta 8.
[33] David Robertson, Cartas para Dawkins, Carta 8.
[34] Livro do qual sou co-autor. Emmanuel Dijon foi o responsável pelo capítulo referente ao darwinismo.
[35] Oliver Wendell Holmes, “Buck vs. Bell”, Cornell University Law School: Supreme Court Collection. Disponível em: www.law.cornell.edu/supct/html/historics/USSC_CR_0274_0200_ZO.html
[36] Practical Ethics, 1.ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1979, p. 122-3.
[37] Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu.
[38] Independent Extra (13 de setembro de 2006).
[39] Peter Singer, Repensando Vida e Morte.
[42] Mein Kampf, Quarta reimpressão. Londres: Hurst & Blackett, 1939, p. 239-40,242.
[43] Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho fé suficiente para ser ateu.
[44] George William Hunter, Essentials of Biology: Presented in Problems. New York, Cincinnati, Chicago: American Book, 1911, p. 320.
[45] Charles Darwin, The Descent of Man.
[46] ibid.
[47] Para quem não conhece a história, uma garota gremista que compareceu ao estádio do Grêmio para assistir ao jogo contra o Santos pela Copa do Brasil de 2014 gritou da arquibancada “macaco!” em direção ao goleiro negro santista. Ela não disse que iria exterminá-lo, nem que a raça dela é superior à dele, nem chamou os negros de selvagens, nem escreveu tudo isso de forma séria em uma publicação de renome internacional. Somente disse “macaco”, e já foi o suficiente para a mídia não falar em outra coisa nas semanas seguintes, e para que o Grêmio fosse excluído automaticamente da Copa do Brasil. O ato foi errado? Foi. Foi racista? Sim. Mas compare isso com o que Darwin disse, e não é nada. A diferença é que Darwin disse coisa muito pior e é venerado hoje no mundo todo, enquanto ela, por muito menos, foi perseguida, teve sua casa apedrejada, recebeu diversas ameaças de morte e não pôde mais viver em paz depois disso. Curioso, não?
[48] Charles Darwin, The Descent of Man.
[50] “Dawkiniana”, i.e, de Richard Dawkins.
[54] ibid.
[57] ibid.
[59] William Lane Craig, Em Guarda, p. 146.
[61] Geisler e Turek comentaram: “Mesmo que a sobrevivência seja considerada como final, os darwinistas não podem explicar por que as pessoas sabidamente se envolvem num comportamento autodestrutivo (i.e., fumar, beber, drogar-se, cometer suicídio etc.). Os darwinistas também não podem explicar por que as pessoas frequentemente subvertem seus próprios instintos de sobrevivência para ajudar outros, às vezes até a ponto de isso causar sua própria morte. Todos sabemos que não há fim mais nobre do que a simples sobrevivência: os soldados sacrificam-se por seu país, os pais por seus filhos e, se o Cristianismo é verdadeiro, Deus sacrificou seu Filho por nós” (Não tenho fé suficiente para ser ateu).
[62] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
[63] ibid.
[64] William Lane Craig, Em Guarda, p. 151.
[65] C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.
[66] A falsa dicotomia é uma falácia lógica que descreve uma situação em que dois pontos de vista alternativos, geralmente opostos, são colocados como sendo as únicas opções, quando na realidade existem outras opções que não foram consideradas.
[67] William Lane Craig, Em Guarda, p. 149.

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