quinta-feira, 28 de julho de 2016

Dr. Craig responde sobre a inerrância bíblica


Pergunta:

Sempre escuto com prazer você falar, e, sobretudo, amo as partes do interrogatório e das perguntas e respostas de seus debates. Foi um prazer conhecê-lo na conferência em Atlanta.

Minha pergunta está relacionada com a natureza da inspiração da Escritura. Crentes debatem sobre a diferença entre inspiração e inerrância e muitas vezes discutem sobre a definição do que significa ser inerrante (discussão que, a meu ver, conduz às vezes à má exegese e hermenêutica visto que são forçados a enquadrarem uma interpretação que, na verdade, não é razoável, em virtude de uma visão de inerrância que Deus pode não ter pretendido).

Como ateu, cheguei à fé principalmente ao ler a Bíblia por um ano. Uma vez que a segunda seção do livro que estou escrevendo é sobre a inspiração da Escritura, tenho dedicado muito tempo pensando em como convencer os incrédulos. Em meu estudo, um pensamento estranho me sobreveio. Não importa se o Novo Testamento é inerrante ou mesmo inspirado – só o que importa é se ele é verdadeiro.

Se os escritores dos evangelhos registraram de forma precisa o que Jesus disse e fez, e se Lucas preservou a história desde cerca do ano 30 ao 62 AD, e se os autores das epístolas escreveram sobre o que aprenderam com Jesus e os apóstolos, então, temos tudo que precisamos para nos tornarmos cristãos e termos um relacionamento com Deus.

Pessoas se tornaram discípulas de Jesus por mais de duas décadas antes do Novo Testamento começar a ser escrito! Não me entenda mal – eu acredito que o NT seja inspirado, como 2ª Timóteo 3 e 1 Pedro indicam (embora ambos se refiram ao Antigo Testamento. 2ª Pedro 3:16 se refere às cartas de Paulo como Escritura, e Paulo cita ou parafraseia o evangelho de Lucas em mais de uma ocasião). 

Entretanto, tenho percebido que muitos apologistas especializados (incluindo você mesmo), não argumentam a favor da inspiração da Escritura em debates, mas sim pela sua precisão histórica.

Minha pergunta é: nós realmente precisamos argumentar com base na inspiração e na inerrância? Não seria melhor argumentarmos que as Escrituras são confiáveis? Assim fazendo, silenciamos aqueles (como Bart Ehrman ou Shabir Ally) que se valem das discrepâncias entre os relatos para fugirem do ponto central (muitas das quais são fáceis de explicar, de qualquer modo). Obrigado por escolher minha pergunta e por ajudar tantas pessoas.

Joe,
Estados Unidos.


Dr. Craig responde:

Ao lidar com sua pergunta, Joe, é importante que façamos a distinção entre as diferentes tarefas da apologética e da teologia. A tarefa da apologética é apresentar uma justificação racional para a verdade da cosmovisão cristã. Por "Cosmovisão Cristã", não me refiro ao conjunto completo das doutrinas cristãs.  Refiro-me aos elementos gerais de uma visão que a tornaria digna de ter aposto a si o rótulo de "cristã". De maneira mais simples, trata-se do que é necessário e suficiente acreditar a fim de se tornar um cristão. Este tipo de compreensão minimalista da visão de mundo cristã é o que C. S. Lewis chamou de "Cristianismo Puro e Simples".

As colunas centrais da cosmovisão cristã me parecem ser a existência de Deus e Sua decisiva autorevelação em Jesus, demonstrada na Sua ressurreição dos mortos. Se alguém passa a crer nesses dois pontos, então, esse alguém deve se tornar um cristão, e o resto é questão de trabalhar os detalhes.

Agora, como você percebe, para que se forneça uma justificação para essas duas crenças, não precisamos afirmar a inspiração bíblica, e muito menos a inerrância. Os argumentos da teologia natural para a existência de Deus não dependem da inerrância bíblica, nem tampouco da demonstração dos fatos cruciais da vida de Jesus de Nazaré, incluindo Sua alegações radicais, nas quais se colocava no lugar de Deus, e os eventos chave que fundamentam a inferência de Sua ressurreição dos mortos.

Apologistas cristãos populares já há um tempo defendem, da boca pra fora, este ponto da inerrância, mas não o levaram a sério, como se revela ao utilizarem-se de harmonizações implausíveis a fim de defenderem os relatos dos evangelhos contra qualquer alegação de erro. Tais medidas são desnecessárias. A verdade é que hoje os fatos centrais que apoiam a inferência da ressurreição de Jesus são admitidos pela ampla maioria dos eruditos do Novo Testamento, até mesmo por aqueles que entendem que os evangelhos estão cheios de erros e inconsistências.

Por exemplo, Wolfhart Pannenberg, meu orientador no doutorado, argumentava em favor da historicidade da ressurreição de Jesus e do túmulo vazio, embora acreditasse que as histórias sobre o túmulo vazio são tão lendárias que elas não possuem "sequer um núcleo de verdade histórica". Eu penso que Pannenberg subestimou seriamente a credibilidade histórica dos relatos do túmulo vazio, principalmente em virtude do trabalho do crítico alemão Hans Grass; mas, deixando isso de lado: o fato é que Pannenberg ilustra bem como alguém pode ter uma crença na ressurreição corporal de Jesus que seja historicamente justificada, sem estar comprometido com a inerrância dos textos.

Então, eu quase nunca argumento com um incrédulo em torno da inerrância bíblica. Estou disposto a consentir, como ponto de partida para a discussão, com todos os erros e inconsistências do Antigo e Novo Testamentos que ele quiser levantar, enquanto que eu insisto que os documentos reunidos para o que depois foi chamado de Novo Testamento são fundamentalmente confiáveis no que tange aos fatos centrais que embasam as alegações e o destino de Jesus de Nazaré. Para a tarefa da apologética, de fato, não importa se Jesus nasceu em Belém, qual dia da semana ele foi crucificado, quantos anjos estavam na tumba e assim por diante. Contanto que os fatos centrais estejam assegurados, o incrédulo deve se tornar um cristão.

No que se refere à missão da teologia, as coisas são diferentes. O dever da teologia é apresentar sistematicamente as verdades ensinadas nas Escrituras. Deste modo, procura-se desenvolver um sistema coerente de doutrina que seja fiel à Escritura. Baseado no que se julga ser o melhor sentido da Escritura, desenvolve-se um conjunto mais detalhado da doutrina cristã. Isso incluirá doutrinas acerca do que a Escritura tem a dizer sobre ela mesma.

Lewis reconheceu que ninguém deveria ficar com o "Cristianismo Puro e Simples" meramente. O "Cristianismo Puro e Simples", ele disse, é como um salão de entrada que leva para vários aposentos. Ninguém se contenta em permanecer no salão de entrada; são nos aposentos onde se encontram as lareiras, os sofás e as conversas. Então, depois de passar pelo salão de entrada, a pessoa se encaminhará para os aposentos nos quais encontrará cristãos protestantes, católicos, ortodoxos e coptas. Por fim, ela vai encontrar uma sala onde se sinta mais confortável com as doutrinas que estão ali estabelecidas.

Assim, em meu curso "Defensores", que estuda a doutrina cristã, o primeiro assunto que consideramos é a Doutrina da Revelação, ou seja, como Deus se revelou, a qual abrange doutrinas sobre a inspiração e a inerrância da Escritura. A crença de que a Escritura não é simplesmente um ensinamento humano mas a própria Palavra de Deus para nós será importante no viver a vida cristã. Ela também fornecerá um guia autoritativo para desenvolver o restante da doutrina de Cristo.

Portanto, em resposta às suas perguntas, nós não precisamos "argumentar com base na inspiração e na inerrância" frente aos incrédulos; contudo, precisamos estudar essas questões com nossos companheiros cristãos. Lidando com incrédulos, devemos simplesmente defender que os documentos que formam o Novo Testamento são confiáveis o bastante para assegurar as crenças de que Jesus via a si próprio como o Messias, o único Filho de Deus, e como o Filho do Homem mencionado em Daniel; que Sua crucificação, sepultamento, o túmulo vazio, Suas aparições pós-morte, e a origem da crença dos primeiros discípulos em Sua ressurreição são historicamente bem fundamentados. Ao nos dirigir a crentes cristãos, temos de examinar a natureza da inspiração bíblica e o que dela decorre para a veracidade da Escritura. 

Tradução: Reginaldo Castro.


        
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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Por que Jesus teve que morrer na cruz?


Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,


        
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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Deus é amor? (Resposta ao Clarion de Laffalot)



Vídeo-resposta ao "Eu te amo", do neo-ateu Clarion de Laffalot:


Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,


        
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Por que Deus permite os tsunamis?


“Se Deus sabia que os tsunamis causariam efeitos maléficos, por que ele criou tsunamis?”

Bem, esse não é o tipo de pergunta fácil de se responder. Neste artigo eu escrevo que os tsunamis não são um mal em si mesmo, uma vez que o tsunami só é considerado um mal se afeta a vida de alguma pessoa. Em caso contrário, é apenas mais um fenômeno natural. Mas aqui a pergunta é diferente: se Deus sabia (pela presciência) que os tsunamis causariam sofrimento na vida das pessoas, por que ele permitiu isso?

Em primeiro lugar, é necessário observar que o tsunami, bem como qualquer outro causador de males, não é parte do plano original de Deus para com a sua criação. O sofrimento é uma consequencia do pecado, o qual será extirpado na nova criação de Deus para sempre (Ap.21:4). Paulo fala um pouco sobre isso em Romanos 8:19-21, texto que diz:

“A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. Pois ela foi submetida à futilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (Romanos 8:19-21)

Para Paulo, os efeitos do pecado alcançaram a própria natureza, que espera a libertação do estado de “decadência” em que se encontra. É claro que ele não está falando especificamente de tsunamis aqui, mas, uma vez que os tsunamis envolvem um efeito negativo da natureza, podemos presumir sua inclusão. Isso responde o porquê que ele existe, mas ainda não parece responder o porquê que Deus não o impede de acontecer. A maioria dos cristãos responderá que “Deus tem um propósito nisso”, jogando a questão para o mistério e confiando na soberania divina. Eu não acho isso errado, mas é necessário esclarecer que tipo de propósito Deus poderia ter com isso.

A nossa sociedade está mal acostumada a pensar que a finalidade da vida presente é a felicidade. E quando eu digo a sociedade, estou incluindo a Igreja também. A Igreja moderna tem se tornado cada vez mais antropocêntrica e menos Cristocêntrica. Tem se focado cada vez mais no homem, e cada vez menos em Deus. Tem levantado seus olhos cada vez mais para o natural, e abaixado a cabeça cada vez mais para o celestial. As coisas espirituais têm dado lugar a um materialismo mascarado e às vezes até mesmo descarado, e por isso não surpreende que mesmo entre os cristãos o ideal da felicidade seja colocado em primeiro lugar.

Eu já enfrentei essa cosmovisão deturpada sobre o Cristianismo em meu livro "Chamados para Crer e Sofrer", e por isso não me alongarei demasiadamente neste ponto aqui. Basta mencionar que, de fato, se o alvo da vida é a felicidade, então o inverso da felicidade – o sofrimento – deve ser considerado o principal mal a ser evitado. Se for assim, então Deus teria a obrigação moral de impedir a qualquer custo esse mal maior (o sofrimento) de vir a acontecer. Mas essa não é uma cosmovisão cristã: é uma cosmovisão mundana, secular, materialista e egocêntrica. A felicidade é almejável no Cristianismo, mas não em primeiro lugar. Biblicamente, o maior bem que o ser humano pode alcançar nesta vida não é a felicidade, mas a salvação.

E isso muda as coisas completamente. Se for a salvação o bem maior, então o mal maior deixa de ser o sofrimento, dando lugar à condenação (que é o inverso da salvação). Em outras palavras, em um mundo onde a felicidade é o bem maior, o sofrimento é o mal maior, e, em um mundo onde a salvação é o bem maior, a condenação é o mal maior. Logo, na cosmovisão cristã, o mal maior a ser evitado não é o sofrimento em si, mas a perdição, isto é, o fato de não ter sido salvo para viver eternamente. E isso nos leva ao próximo ponto, que tem tudo a ver com os efeitos negativos do tsunami: eles são negativos em questão de sofrimento, mas não necessariamente em questão de salvação.

Isso significa que, em determinados casos, Deus pode permitir o sofrimento causado por um tsunami por saber que este sofrimento temporário irá contribuir para gerar uma alegria eterna causada pela salvação de pessoas que talvez, de outra forma, não seriam salvas se não fosse pela tragédia. Ou seja: Deus se compromete em primeiro lugar não com o fim dos nossos sofrimentos terrenos, mas com a salvação das nossas almas, ainda que a salvação da alma possa implicar em sofrimentos terrenos.

A uma primeira vista, pode parecer esquisito e até mesmo improvável que um tsunami possa contribuir positivamente em termos espirituais. No entanto, geralmente, quando um tsunami varre cidades inteiras do mapa, o mundo inteiro se mobiliza para orar, interceder e ajudar as pessoas necessitadas de uma forma ou de outra. São nestes momentos de tristeza que o amor ao próximo, a benevolência, a caridade e a ternura se manifestam visivelmente. São nessas horas de grande aflição que o ser humano começa a entender que precisa um do outro para continuar existindo, que a fraternidade e a vida em comunidade são absolutamente necessárias. São nestes tempos de angústia que estendemos o braço para quem precisa, que nos envolvemos com a situação do próximo, que choramos com aqueles que choram, que praticamos hospitalidade, que nos dispomos a nos associar com todo tipo de gente.

O que há de bom no ser humano é despertado mediante as circunstâncias adversas, que mostram o quanto precisamos uns dos outros, e o quanto a vida humana é importante e precisa ser valorizada. Por mais triste que realmente seja a morte física de um ser humano ou todas as outras consequencias naturais que um tsunami traz, na maioria das vezes há benefícios em termos espirituais, onde as pessoas começam a colocar a salvação em prática através das boas obras, e outras começam a refletir sobre o quão breve e passageira é a vida humana – “o homem é como um sopro, e seus dias são como uma sombra passageira”, diz o salmista (Sl.144:4).

Em outras palavras, pessoas que de outra forma poderiam viver despreocupadamente e depravadamente passam a refletir sobre a vida e concluem que o melhor lugar do mundo é estar aos pés do Criador. Foi na adversidade que Moisés fugiu do Egito para se tornar o libertador do povo de Deus; na adversidade que José foi vendido como escravo para salvar o mundo da fome; na adversidade que Davi fugiu por anos do rei Saul para se tornar o homem segundo o coração de Deus; na adversidade que o Verbo se fez carne, sofreu e morreu para salvar pobres pecadores. Sim, o poder de Deus “se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co.12:9), e não na força!

Em síntese, por maior que seja o sofrimento que um tsunami possa causar, ele pode evitar um mal muito maior do que o sofrimento: a condenação. E por pior que seja privar pessoas da felicidade terrena, ele pode ajudar a causar um bem muito maior do que isso: uma felicidade eterna, que dura para todo o sempre, perto da qual nenhum sofrimento passageiro merece sequer ser comparado. É por isso que Paulo ousadamente diz que “os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles” (2Co.4:17).

Lá do Céu, Deus vê que um tsunami pode causar sofrimento na vida de tantas pessoas, mas vê também que impedi-lo pode privar outras tantas pessoas de um bem muito maior: uma alegria eterna. Ele coloca na balança o mal terreno e passageiro que o tsunami pode gerar, e do outro lado o bem eterno e infindável da salvação, e vê a balança despencar para o outro lado. Isso não significa relativizar ou desprezar o sofrimento real que essas pessoas passam; significa apenas que este sofrimento é um mal menor, que será infinitamente recompensado na vida futura, dentro da cosmovisão cristã. Pessoas são temporariamente privadas da felicidade na terra em função de um tsunami, mas talvez, sem ele, muitas outras se privariam de uma felicidade sem fim, de uma coroa eterna e incorruptível, de muito mais valor do que a privação que sofreu.

Isso não é fácil de se explicar e muito menos de se entender, porque não se trata de um bem para evitar um mal, mas de um mal menor para evitar um mal maior. Um mal menor (tsunami) é permitido para se evitar um mal maior (perdição da alma). Talvez se torne mais fácil de entender quando pensamos que, em geral, somos obrigados a optar desta mesma maneira em nosso cotidiano, ainda que imperceptivelmente. Uma mãe não quer abandonar seu filho pequeno, aos prantos, para deixá-lo numa escola com pessoas desconhecidas em um ambiente desconhecido. Ela é compelida a pegar a criança no colo e enxugar suas lágrimas. No entanto, ela sabe que deixar a criança pequena na escola, mesmo contra a vontade dela, irá gerar um mal menor, e que deixá-la sem estudo irá gerar um mal maior. Ela é obrigada a escolher, e escolhe com a razão, embora a emoção a compila a escolher errado.

Deus não é um velho sádico e rabugento de barba branca sentado em um trono no Céu enviando raios, trovões e tsunamis na terra, para se divertir vendo seus filhos sofrer. Ao contrário: ele é como aquela mãe que, sem querer o sofrimento do seu filho, sabe que às vezes é necessário fazer escolhas que doem. O foco não está no sofrimento em si, mas no bem maior que é gerado através disso, e que motiva o Pai a permitir que o mal aconteça. 

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,


        
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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Por que Deus permite o mal?


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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "O Problema do Mal"
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Outra razão pela qual Deus não intervém o tempo todo destruindo o livre-arbítrio humano é porque ele deu ao homem a autoridade sobre a terra. Este é um conceito muito claro biblicamente, e ao mesmo tempo difícil de explicar sem correr o risco de pender para a heresia.

Quando Deus colocou o homem na terra, ele o colocou como autoridade sobre toda a criação:

“Então disse Deus: ‘Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão’. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou, e lhes disse: ‘Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra’” (Gênesis 1:26-28)

Deus colocou o homem no jardim “para cuidar dele e cultivá-lo” (Gn.2:15). Os salmistas compreenderam bem esta verdade. Davi disse que “os mais altos céus pertencem ao Senhor, mas a terra ele a confiou ao homem” (Sl.115:16). Ele também sublinhou o fato de que Deus fez o homem autoridade sobre a terra, para dominar sobre todas as obras das mãos de Deus:

“Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes? Tu o fizeste um pouco menor do que os seres celestiais e o coroaste de glória e de honra. Tu o fizeste dominar sobre as obras das tuas mãos; sob os seus pés tudo puseste: Todos os rebanhos e manadas, e até os animais selvagens, as aves do céu, os peixes do mar e tudo o que percorre as veredas dos mares” (Salmos 8:3-8)

Isso obviamente não significa que “Deus abriu mão de sua soberania”, mas significa que Deus decidiu colocar o homem como autoridade sobre a criação. O homem é o “mordomo” de Deus na terra, o administrador da criação do Pai. Ele não é uma marionete, nem um autômato, nem um escravo. Ele é a autoridade sobre a terra. Isso significa, como bem destacou Dutch Sheets, que se o destino da humanidade desse certo seria por causa do homem, e se desse errado seria por culpa do homem.

A autoridade está nas mãos da humanidade, razão pela qual até mesmo quando Deus intervém na terra é por meio da oração daquele que tem autoridade sobre ela, ou seja, nós mesmos. É por isso que em certa ocasião Deus disse:

“Procurei entre eles um homem que erguesse o muro e se pusesse na brecha diante de mim e em favor da terra, para que eu não a destruísse, mas não encontrei nem um só. Por isso derramarei a minha ira sobre eles e os consumirei com o meu grande furor; sofrerão as consequências de tudo o que eles fizeram, palavra do Soberano Senhor” (Ezequiel 22:30-31)

Israel havia pecado gravemente contra Deus. O povo da terra praticava “roubos e extorsão; oprime os pobres e os necessitados e maltrata os estrangeiros, negando-lhes justiça” (Ez.22:29). Mesmo assim, Deus estava disposto dar-lhes uma nova chance. Para isso bastaria que alguém se colocasse “na brecha”, rogando a Ele pela sobrevivência de Israel. No entanto, Deus não encontrou ninguém. Todos haviam caído no pecado ou na negligência, e então a punição veio. Este conceito pode parecer forte demais para muitos, mas a verdade é que Deus permite que os homens tomem decisões que podem influenciar a história. O homem é senhor do seu destino, a autoridade responsável pelo êxito ou pelo fracasso deste mundo, e isso explica o porquê que tantos males ocorrem.

É por isso que os cristãos oram para que não seja feita a nossa vontade, mas sim a de Deus. Ao pedirmos isso, estamos dizendo a Deus que abrimos mão do nosso direito legal de guiar nossas próprias vidas, e colocando a Cristo no comando do barco. Mas essa oração só faz sentido se aqueles que não pedem por isso não recebem; ou seja, se as pessoas do mundo continuam guiando suas próprias vidas – o que explica o porquê que tanta gente se perde, mesmo com Deus desejando a salvação de todas as pessoas (2Pe.3:9; 1Tm.2:3-4).

É claro que Deus não é completamente passivo e nem perde o controle das coisas. Ele intervém em respostas às orações e periodicamente impede que o mundo caminhe para a autodestruição. Ele não faz isso porque precisa fazer, mas faz por misericórdia. Se ele não interviesse nunca, a responsabilidade permaneceria do homem. Deus intervém porque sabe que o homem se destruiria mutuamente sem sua intervenção.

O mundo estaria muito pior sem a intervenção periódica de Deus, refreando o pecado e punindo os culpados. No mundo pré-diluviano, por exemplo, a calamidade moral havia chegado a tal ponto em que só sobravam Noé e sua família dentre os justos do mundo antigo. E, se Deus não interviesse, provavelmente em pouco tempo não sobraria ninguém, bastando que Noé e sua família morressem ou fossem assassinados pela multidão de ímpios. “O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal” (Gn.6:5).

Deus teve que intervir, pelo bem do homem. Se não fosse por isso, a humanidade já teria se autodestruído. O ateu não aceita as intervenções de Deus, nem mesmo com o próprio dilúvio. Se Deus mata todos os ímpios em um dilúvio, ele é do mal, porque matou todos os ímpios. Mas se Deus deixa todos os ímpios viverem, ele é do mal, porque deixou todos os ímpios vivos. Eles não chegam a um acordo. A verdade é que Deus intervém, mas não sempre, porque se interviesse sempre estaria tirando a autoridade do homem sobre a terra e seu consequente livre-arbítrio. Ou o homem tem autoridade, ou ele não tem.

Se Deus impedisse todos os males de acontecer, ele teria dado autoridade ao homem de mentirinha. Se só há liberdade para fazer o bem, então não há liberdade. A “liberdade” seria uma enganação. Não haveria “escolha” real, se a opção “B” não fosse concretizável. Se Deus manipula as decisões do homem a cada vez que ele escolhe errado, então o homem não é autoridade. É necessário permitir o mal, como decorrência da liberdade dada ao homem pelo desejo do próprio homem, que escolheu comer do fruto do conhecimento do bem e do mal e ter total autonomia em lugar de Deus.

Estes conceitos não são fáceis de se explicar, primeiramente porque não há como o homem determinar com que frequencia que Deus intervém, ou onde exatamente que ele intervém. Um exemplo muito popular dado pelos ateus é o da queda de aviões. Eles argumentam que, se Deus existe e deseja o bem, ele deveria impedir todos os aviões de cair, contornando qualquer problema técnico ou do piloto. Já vimos que este quadro é ilusório em um mundo onde o homem é a autoridade e decide por si mesmo. Se Deus nunca deixasse um avião cair, nenhum piloto iria realmente se preparar para pilotar um avião. Se colocasse metade do combustível necessário para a viagem, a outra metade surgiria sozinha. Se o piloto estivesse bêbado ou dormindo, o avião pousaria por si mesmo. Se colocassem fogo no avião, o fogo apagaria do nada, e assim por diante.

A conclusão óbvia você já deve ter notado. Dizer que Deus deveria impedir sempre os aviões de cair implica necessariamente em uma completa desordem e caos no mundo natural. O homem se resumiria a um autômato e não teria autoridade sobre nada. Suas escolhas não poderiam determinar seu rumo. O livre-arbítrio não existiria. As leis naturais seriam quebradas a cada instante. Esta simplesmente não é uma opção razoável!

O ateu poderia então dizer que Deus não deveria impedir que todo avião caísse, mas deveria impedir que mais aviões caíssem do que a quantidade de aviões que costuma cair no mundo. O problema com este argumento é que simplesmente não é possível afirmar com exatidão quantos aviões que Deus hipoteticamente impede de cair no mundo, e este dado é imprescindível para o argumento ateísta, pois ele presume que Deus não impede nada. Esse pressuposto, no entanto, não tem como ser provado.

Considerando os dados da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), em 2014 um avião caiu para cada quatro milhões de aviões que não caíram. Poderíamos conjecturar que este índice praticamente insignificante de queda de aviões seria muito maior se Deus não interviesse nunca, e só não é menor porque é necessário que Deus não intervenha sempre. Ou seja, o ateu que argumenta que Deus nunca impede a queda de aviões não tem como saber se ele impede ou não. Se Deus impede, nós nem ficaríamos sabendo. E se ele permite que um a cada quatro milhões de aviões caiam, é porque a autoridade do homem sobre a terra não pode ser completamente ignorada, pelas razões já expostas aqui. Por fim, mesmo se um único avião tivesse caído na história, os ateus estariam usando essa queda para culpar Deus do mesmo jeito.

O mesmo raciocínio se aplica a outro exemplo comum, o das balas perdidas. “Por que Deus não desviou a bala?”, questiona o ateu. Mas se Deus costuma desviar balas, isso está além do conhecimento aplicável. Uma bala que teoricamente acertaria uma pessoa e que fosse “desviada por Deus” para acertar uma parede passaria totalmente imperceptível. Agiríamos com naturalidade frente ao fato, não observando qualquer intervenção sobrenatural.

O problema é que na mente de muitas pessoas Deus só intervém em situações extremas, como quando um acidente mata dezenas e só um sobrevive “por milagre”. Eu não creio que seja assim. Entendo que a esmagadora maioria das intervenções divinas são muito mais sutis do que se pensa, de modo que não é possível determinar quando Deus intervém e quando ele não intervém. Você pode ter recebido muitos livramentos divinos dos quais jamais se deu conta, da mesma forma que pode ter achado que recebeu um livramento quando apenas teve sorte. Essas são questões que estão além do conhecimento humano.

Se Deus não interviesse nunca, nós nem estaríamos aqui. E mesmo quando Deus decide não intervir, pode ser por um propósito maior (que já vimos anteriormente), ou para mostrar ao homem as consequencias de sua própria rebeldia deliberada. O homem erra, e o homem paga a conta. A humanidade é fruto das decisões certas e erradas do homem, somada a intervenções divinas periódicas que impedem que ela se autodestrua completamente – sendo estas intervenções quase sempre intimamente relacionadas com a oração de adoradores sinceros a Deus (o que torna a oração profundamente importante).

Em um exemplo análogo ao do avião, Bruce Reichenbach discorre sobre uma pessoa se afogando em um lago – ocasião em que um ateu prontamente exigiria uma ação sobrenatural da parte de Deus. Ele pondera:

Se Deus consistentemente estivesse interrompendo as leis naturais, o mundo logo se tornaria um caos, no qual a ação moral humana seria impossível. Sem a regularidade e a ordem, não poderíamos planejar nem calcular racionalmente as ações que deveríamos executar, a fim de atingir nossos objetivos. Seria impossível predizer os resultados de nossas ações, e de outras pessoas. Suponhamos que estamos vendo uma pessoa num lago, gritando por socorro. Devemos agir? Se sim, de que maneira? Se não houvesse leis naturais, ou se tais leis fossem frequentemente violadas pela intervenção divina (e direta) não saberíamos se deveríamos ou não pular na água para tentar salvar a pessoa. Não saberíamos se a pessoa se afogaria ou não naquele lago, se ela seria capaz ou não de erguer-se e caminhar por sobre as águas, ou se ela flutuaria como uma rolha. Como deveríamos agir depende de como podemos agir, e como podemos agir depende de nosso conhecimento. Neste caso, depende de nosso conhecimento das propriedades naturais da água e como se relacionam com o corpo humano. Contudo, sem este tipo de conhecimento, nossa própria atividade moral se torna impossível. Embora isto não signifique que Deus não pode agir diretamente sobre a natureza, certamente significa que Deus não pode agir de maneira que redundaria na destruição da ordem natural e, consequentemente, em nossa própria incapacidade para agir de modo racional, prudente e moral.

Semelhantemente, C. S. Lewis discorre:

Imagine uma viga de madeira que se torna suave como a grama quando for usada como arma e o ar se recusasse a obedecer-me se eu tentasse criar nele ondas sonoras que carregam mentiras ou insultos. Mas tal mundo seria aquele em que ações erradas seriam impossíveis, e, portanto, o livre-arbítrio seria nulo. Se esse princípio fosse levado à sua conclusão lógica, até mesmo os maus pensamentos seriam impossíveis, e a matéria cerebral que usamos para pensar iria se recusar a realizar a tarefa quando tentássemos enquadrá-los.

É por isso que as acusações ateístas são geralmente tão simplistas e infantis, porque desconsideram as consequencias de suas argumentações, ou a impossibilidade de seus pedidos se concretizarem efetivamente em um mundo livre. Se Deus quisesse evitar todo o sofrimento, ele poderia, mas neste caso a liberdade e a autonomia dos homens acabariam juntamente com as leis naturais. 

Na próxima vez que você segurasse por engano um copo de água fervendo, a água congelaria sozinha. Na próxima vez que você cruzasse a rua e estivesse prestes a ser atropelado, sua perna seria puxada pra trás. Na próxima vez que você tentasse atirar em alguém, a bala desviaria o alvo misteriosamente, e se estivesse próximo demais ela nunca dispararia. Imagine tudo isso ocorrendo o tempo todo no mundo inteiro: isso é pedir o fim do livre-arbítrio. Em mundo com liberdade, uma certa quantidade de mal decorrente das escolhas humanas não é apenas admissível, mas necessária. É a consequencia lógica de um mundo livre onde os homens podem ter o “conhecimento do bem e do mal”, por ele mesmo requerido.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,


        
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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Os desastres naturais e a fome na África são culpa de Deus?


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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "O Problema do Mal"
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Os ateus alegam que existem males que ocorrem sem ser em função do livre-arbítrio humano. A estes males se dá o nome de desastres naturais, onde se inclui em especial os tsunamis que varrem cidades inteiras e dizimam milhares de pessoas, os morros que deslizam em uma favela que causam mais mortes, etc. Em primeiro lugar, é importante observar que parte significativa destes eventos tem influência humana, ainda que muitos ignorem o fato.

A desflorestação causada pelo homem causa a redução da biodiversidade, que por sua vez é responsável pela diversidade de genes existentes no mundo e necessária para a produção de medicamentos, alimentos e outros recursos biológicos, além da infertilidade do solo e da diminuição do oxigênio. A poluição das águas causa enormes danos aos organismos vivos e, consequentemente, à cadeira alimentar e à nossa saúde.

A poluição do solo prejudica também a vegetação e os animais, e com a queima da vegetação o terreno fica mais exposto ao sol e ao vento, causando a perda de nutrientes e a erosão do solo. A poluição da atmosfera, por sua vez, causa o aumento da temperatura e provoca asma, bronquite, problemas respiratórios e cardíacos, além de chuvas ácidas e efeito estufa. O aquecimento global altera o ritmo das chuvas e a temperatura ambiente e do solo, além de interferir na umidade do ar.

Portanto, muitos grandes desastres ambientais são causados pelo homem. Outros são consequencia da ignorância humana sobre o meio ambiente, desconsideração de alertas, erros de engenharia, má administração, mau planejamento humano. É necessário ainda salientar que um tsunami ou um deslizamento de terra não é um mal em si. Na verdade, ele não passa de mais um fenômeno natural, assim como os raios numa chuva e a pororoca da Amazônia. Se um tsunami ou um deslizamento de terra ocorresse em qualquer lugar em que não houvesse ser humano, isso de modo algum seria considerado um “mal”.

O problema, portanto, é mais a existência de pessoas vivendo em zonas de risco do que propriamente o evento em si. E o fato de pessoas morarem em zonas de risco não é culpa de Deus, a não ser que Deus as tenha trazido à força para aqueles lugares, o que obviamente não é o caso. É por culpa da superpopulação mundial e da má distribuição dos recursos que populações inteiras são obrigadas a morar em zonas precárias ou de risco, que simplesmente não deveriam ser habitadas por ninguém. É óbvio que a culpa não é da pessoa que mora ali, que muitas vezes não tem outra opção. Mas é consequencia das decisões erradas da humanidade como um todo. A humanidade escolhe errado, e a humanidade colhe os frutos de seus erros.

Se a humanidade não se reproduzisse de forma acelerada e descontrolada, e se houvesse melhor distribuição dos recursos entre as nações, a miséria não existiria, e ninguém precisaria morar em zonas de risco que não deveriam ser habitáveis. Deus fez as regras do jogo e providenciou todas as condições necessárias para se obter o sucesso, bastando à humanidade que fizesse as escolhas certas que gerassem desenvolvimento com sustentabilidade. A própria fome na África, que é provavelmente o argumento mais rotineiro dos ateus contra a existência de Deus, é um problema humano, causado por erros humanos. Não é Deus que mata crianças de fome, mas o homem.

Deus providenciou todos os meios necessários para que ninguém precisasse morrer de fome. Ele nos colocou em um planeta amplamente repleto de recursos naturais, que deveriam ser mais do que o suficiente para uma humanidade que fizesse as escolhas certas. Foi principalmente a partir dos anos 1800 que extinção de espécies, grandes epidemias, drásticas mudanças climáticas, poluição atmosférica, desequilíbrio de ecossistemas por caça e desmatamento, diminuição de recursos naturais e aumento de locais contaminados por resíduos produzidos pelo homem ganharam um novo impulso. A superpopulação e seu consequente impacto ambiental também contribuem negativamente na produção de alimentos, gerando a miséria.

Por causa do crescimento populacional desenfreado, enormes áreas são destinadas à agricultura, causando o empobrecimento do solo, o desequilíbrio do ecossistema e a monocultura. As grandes metrópoles construídas em lugares antes desabitados desequilibram o meio ambiente e degradam a natureza. Deus criou tudo originalmente em estado ideal, mas o homem, com suas decisões erradas, selou sua própria sorte.

E o mais impressionante é que, mesmo com tantas decisões erradas do homem, ainda assim os recursos que temos hoje continuam sendo suficientes para alimentar toda a população mundial. O problema é que uma enorme concentração de renda fica nas mãos de poucos, e uma quantidade insignificante fica nas mãos de muitos. Para se ter uma ideia, 1% dos mais ricos do mundo tem o equivalente a 50% de toda a riqueza mundial, e a riqueza dos 80 mais ricos deste mundo é a mesma dos 3,5 bilhões de pessoas mais pobres. E os índices mostram que essa desigualdade só permanece crescendo.

Portanto, a culpa da miséria no mundo é de Deus ou do homem? Vejamos, novamente: Deus criou tudo em um estado original perfeito. Ele deu todas as condições necessárias para que as coisas continuassem em um estado ideal, caso nós usássemos bem nosso livre-arbítrio. E ele encheu este planeta de recursos naturais, cabendo ao homem apenas a tarefa de distribuí-los de forma minimamente decente. Eu não estou falando de socialismo, que é uma “solução” pueril e fantasiosa. Na verdade, bastaria que os 1% mais ricos tivessem 20% de toda a riqueza mundial (o que ainda seria muito), que ainda sobraria muito para alimentar os mais pobres, de modo que ninguém morreria de fome.

E, mesmo assim, as pessoas ainda culpam Deus pela fome no mundo – aquele mesmo que providenciou tudo em condições ideais e as deu ao homem de mão-beijada – em vez de culpar o homem, aquele mesmo que arruinou tudo pelas suas próprias escolhas livres. Na verdade, se o homem seguisse os próprios padrões que Deus nos entregou em Sua Palavra – padrões de santidade, amor, justiça, domínio próprio, mansidão, humildade, paz, bondade e temperança – ninguém iria realmente pensar em culpar Deus por coisa alguma.

É como Lane Craig escreveu:

Imagine que todo mundo vivesse de acordo com os ensinos de Jesus – que mundo maravilhoso seria! Se houvesse uma estiagem na Etiópia, o mundo se movimentaria para ajudar o povo dali a evitar a fome. A riqueza do mundo seria basicamente redistribuída, em vez de ser acumulada nas nações materialistas ocidentais. Como resultado, as doenças diminuiriam grandemente, os cuidados médicos estariam mais prontamente disponíveis, e as pessoas viveriam em lares decentes, em vez de viverem em casas, choças ou moradias coletivas em áreas carentes, que são demolidas nas catástrofes naturais. Pense na misericórdia e no amor que seriam mostrados para aqueles que sofrem!

Se nós como Igreja colocássemos em prática o evangelho – observa Philip Yancey – então talvez a pergunta “Deus é injusto?” não fosse feita hoje em dia com tanta urgência.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,


        
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O livre-arbítrio cristão não existe?


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O trecho abaixo é extraído de meu livro: "O Problema do Mal"
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Muitos ateus levantam o questionamento de que na cosmovisão cristã não pode existir algo como um livre-arbítrio, porque existe a condenação para os que decidem rejeitar a Cristo. Portanto, se há punição, então não há livre-arbítrio. Ora, isso é uma distorção grosseira do que significa livre-arbítrio. Livre-arbítrio é poder fazer o que quiser. Se a pessoa será punida, recompensada ou ignorada pelo que fez livremente, isso é uma outra questão. O livre-arbítrio não diz respeito à consequencia; diz respeito ao ato em si. As pessoas não são marionetes nas mãos de uma divindade; são seres livres que decidem agir como bem entendem.

O ateu tem todo o direito de achar que a punição pelos maus atos é errada, mas não o de distorcer o sentido de livre-arbítrio para passar a impressão de que quem o praticou não era livre para decidir se praticaria ou não. E se a punição divina pelos maus atos implica que não existe livre-arbítrio na cosmovisão cristã, então nem na cosmovisão ateísta haveria livre-arbítrio, uma vez que existem policiais para prender aqueles que fazem o mal, juízes para condená-los e prisões para encarcerá-los.

Por que os ateus não reclamam também que não existe livre-arbítrio nesta vida, porque para existir livre-arbítrio deveria inexistir punição por certos atos livres? Por que eles não entram na luta contra a polícia, contra os tribunais e contra a prisão? Afinal, se só pode haver livre-arbítrio onde não há punição, então nem na visão ateísta o livre-arbítrio existe. Todas as formas de punição deveriam inexistir completamente para as pessoas serem consideradas “livres”. Um bandido não poderia ser preso por ter assassinado alguém, porque o livre-arbítrio dele (em decidir matar alguém) deveria ser “respeitado”. É óbvio que a conclusão ateísta é barata e superficial.

Livre-arbítrio é Deus permitir que o homem aja da forma que ele escolher agir, da mesma forma que o bandido tem a opção de matar ou não matar. Ele não é obrigado a matar, o traficante não é obrigado vender drogas, o estuprador não é obrigado a estuprar, um aluno não é obrigado a colar, um ateu não é obrigado a rejeitar Jesus. Eles agem assim porque querem. Mas para cada uma das ações há um efeito, seja ela uma consequencia natural ou uma punição imposta. No caso do assassino, a consequencia natural é a outra pessoa morta, e a punição imposta é a prisão.

Nada disso interfere no livre-arbítrio, porque cada pessoa foi livre para agir daquela forma. É justamente por ela ter o livre-arbítrio que ela pode ser punida pelo ato, porque se ela não tivesse a liberdade de escolha ela não poderia ser justamente condenada. Livre-arbítrio é poder ter agido de forma diferente da que agiu, e é com base no pressuposto do livre-arbítrio que pessoas são presas. Se quem fizesse o mal não tivesse a opção de não ter feito o mal, mas o fizesse por obrigação, ninguém seria preso. Eles são presos porque tiveram opção, e eles tiveram opção porque tinham livre-arbítrio.

Se alguém conseguisse criar uma tecnologia tão avançada ao ponto de poder entrar na mente de um ser humano e ter controle sobre suas ações, de modo que o indivíduo fosse completamente impotente para impedir o que se fizesse por meio do seu corpo, este indivíduo não seria condenado por ter feito algo que ele não poderia ter impedido. Essa é a razão pela qual pessoas com sérios problemas mentais não são julgadas pela lei da mesma forma que as pessoas em sã consciência.

Quanto mais o indivíduo pode escolher, isto é, quanto maior for sua capacidade de livre-arbítrio, mais moralmente responsável ele é, e, consequentemente, com mais justiça pode ser condenado e punido. Por isso, a lógica é exatamente a oposta à que é proposta pelos ateus. Em vez de o livre-arbítrio implicar em todo mundo poder agir da forma que bem entender e sem poder ser punido por qualquer coisa que faça, o sentido real de livre-arbítrio é poder agir da forma que bem entender, e justamente por isso ser punido caso escolha agir errado.

Na Bíblia, este conceito é muito claro. “Vejam que hoje ponho diante de vocês vida e o bem, ou morte e o mal” (Dt.30:15). Deus nos coloca as duas opções, nos incita a escolher pelo bem e nos adverte sobre as consequencias da má escolha. Isso é livre-arbítrio. Deus não escolhe em nosso lugar, ele nos deixa escolher. Há uma idade em que o homem já pode “rejeitar o erro e escolher o que é certo” (Is.7:15). Josué colocou essas duas opções – bem e mal – aos israelitas, juntamente com sua própria escolha:

“Se, porém, não lhes agrada servir ao Senhor, escolham hoje a quem irão servir, se aos deuses que os seus antepassados serviram além do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra vocês estão vivendo. Mas, eu e a minha família servi­remos ao Senhor(Josué 24:15)

Essa mesma escolha o próprio Deus havia colocado nas mãos dos hebreus:

“Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida, para que vocês e os seus filhos vivam” (Deuteronômio 30:19)

Até quando alguém decide agir contraditoriamente à vontade de Deus, ele respeita a livre decisão do homem. Deus não impõe uma mão forte para que todo mundo haja rigorosamente igual Ele quer que haja. Jesus queria reunir os israelitas para Si, mas eles não quiseram, e a decisão dos judeus prevaleceu:

“Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedrejas os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram!” (Lucas 13:34)

Mesmo quando alguém escolhe o mau caminho e a punição se torna necessária, Deus não pune por prazer, como quem gosta de ver o sofrimento alheio. Ele pune por justiça. “Desejaria eu, de qualquer maneira a morte do ímpio? Diz o Senhor Jeová; não desejo, antes, que se converta dos seus caminhos e viva?” (Ez.8:23), “pois não me agrada a morte de ninguém; palavra do Soberano Senhor. Arrependam-se e vivam!” (Ez.18:32). Ezequiel reitera ainda mais que “Deus não quer a morte do pecador, mas, antes, que se converta e viva” (Ez.33:11). Os apóstolos assimilaram bem esta condição, razão pela qual disseram:

“O Senhor não demora em cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Pelo contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2ª Pedro 3:9)

“Isso é bom e agradável perante Deus, nosso Salvador, que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1ª Timóteo 2:3-4)

O segundo tipo de objeção comum ao livre-arbítrio é o texto em que Deus diz endurecer o coração do Faraó (Êx.10:27). Alguns usam isso como “prova” de que o livre-arbítrio não existe, porque, se existisse, Faraó seria livre para agir como quisesse. Essa objeção é fraca e já começa errada por um non sequitur. Mesmo que o fato de Deus ter endurecido o coração de Faraó implicasse em perda do livre-arbítrio, isso não significaria que ninguém tem livre-arbítrio nunca. A única inferência necessária seria que o Faraó, naquela situação específica, teve seu livre-arbítrio temporariamente violado. O texto não diz que Deus endurece o coração de todo mundo, e muito menos que ele endurece pra sempre.

Há, no entanto, muita evidência de que nem mesmo o endurecimento do Faraó implicou em perda de livre-arbítrio da parte dele. Isso porque a Bíblia é clara em dizer que Faraó endureceu seu próprio coração muito antes de Deus fazer isso (Êx.8:15,32). Diferente do que alguns néscios pensam, Faraó não era um homem bonzinho, cheio de boa vontade e empenhado em libertar seus escravos na maior das boas intenções, deixando todo o Egito sem sua mão-de-obra gratuita e abrindo mão de sua maior fonte de renda. Em vez disso, Faraó era o maior senhor de escravos do mundo antigo, uma espécie de Hitler dos tempos antigos. Deus não precisava fazer nada para “endurecer” o coração de um ser desses além de permitir que ele permanecesse endurecido.

Até mesmo alguns autores calvinistas têm reconhecido isso. R. C. Sproul, em seu livro “Eleitos de Deus”, faz uma distinção entre endurecimento ativo e passivo, e afirma o segundo em relação ao Faraó:

O endurecimento ativo envolveria a intervenção direta de Deus nas câmaras internas do coração do Faraó. Deus irromperia no coração do Faraó e criaria nele um mal adicional. Isto garantiria que Faraó produziria o resultado que Deus estava procurando (...) O endurecimento passivo é uma história totalmente diferente. O endurecimento passivo envolve um julgamento divino sobre o pecado que já está presente. Tudo o que Deus tem a fazer para endurecer o coração de uma pessoa cujo coração já é desesperadamente mau é “entregá-la a seu pecado”. Encontramos este conceito de julgamento divino em toda a Escritura.

Não é que Deus coloque sua mão sobre elas para criar o mal novo em seus corações; Ele meramente remove delas sua santa mão de restrição, e deixa que façam sua própria vontade (...) Tudo o que Deus tinha a fazer para endurecer mais a Faraó era remover seu braço. As inclinações malignas de Faraó fizeram o restante.

Portanto, não é correto dizer que Deus impediu Faraó de ser livre. Todas as ações de Faraó foram tomadas a partir de seu próprio livre-arbítrio, que já era inclinado por si mesmo para o mal. Nada disso prova que os seres humanos não possuem liberdade de escolha. Se por um lado é verdade que ninguém pode ser perfeito apenas por meio do bom uso do livre-arbítrio – razão pela qual precisamos da justificação através de Cristo – também é verdade que podemos evitar muitos males mediante um uso correto. O livre-arbítrio não é bom ou mal em si mesmo, ele simplesmente é o potencial para decidirmos agir bem ou mal. Um dia Deus restringirá seriamente o livre-arbítrio, e isso será abordado mais adiante. Por hora, Deus age conforme dito em 2ª Samuel 14:14:

“Que teremos que morrer um dia, é tão certo como não se pode recolher a água que se espalhou pela terra. Mas Deus não tira a vida; pelo contrário, cria meios para que o banido não permaneça afastado dele” (2ª Samuel 14:14)

Não é Deus quem “tira a vida”. Ao contrário: Deus cria meios para que as pessoas se voltem a ele, mas não coercitivamente, ao ponto de escolher pela própria pessoa. De modo que, se alguém faz o mal, não é por Deus não ter providenciado meios de não fazê-lo, mas porque a própria pessoa decidiu se rebelar contra a boa vontade de Deus, mediante o mau uso de seu livre-arbítrio.

Paz a todos vocês que estão em Cristo

Por Cristo e por Seu Reino,


        
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